terça-feira, 9 de outubro de 2012

E porque não


Não posso esperar por te dizer isto.

A voz doce é redundante.
Mas ele insiste.
Ao que o vais dizer pura e simplesmente ao telefone?

Onde queres que te diga?

Ao ouvido, devagarinho, de mansinho, de forma especial.

Morde a língua respira fundo e espera, aguarda.

A beber um café de manhã apercebi-me o quanto me fazes falta.

Talvez tenha sido por não teres ainda acordado, porque eu estava lá, onde sempre estou, sobre a tua cama.

Eu sei, eu sei.

Baixa a cabeça e imagina-a na sua cama, nua.

Metes-te ao menos açúcar no café?

Não foi preciso, o teu sabor, dos teus lábios adocicou-me tudo o que meti à boca o dia todo.

Eheheh.

Morde o lábio e sorri como se nada fosse.
A rua faz-se escura o sol, já se despedaçou no oceano.
Mas dentro dele arde aquela chama.
Porra Camões o autor não te queria evocar ao caso.

E achas que o que tens para me dizer eu já não sei?

Sabes? Sabes mesmo?

Por trás dele a porta fecha-se, ficou quase 1 hora a olhar para a vitrina antes de entrar.

Não sei?

Não me digas que é algo diferente do que me disseste ontem à noite, parafraseando "Ai amor, Ai amor, Ai meu Deus" mas eu corrigi-te logo "Ai minha Deusa, se faz favor, isso de tares a pensar noutro gajo nesta altura não te fica nada bem"

Ele ri-se, ri-se muito, a este pequeno desnorte, "flirt" chamam-lhe os anglo-saxónicos.

Não sei se sabes.

Então espera para me veres, sabes onde me encontrar.

Entra no carro a pensar no que comprara.
Não lhe sai da cabeça o teatro de ensaiar o que dizer.
O que fazer, violinista não tem, guitarrista, ele toca umas baladas, vai ter que servir.
Chega a casa agarra na guitarra e dirige-se ao andar abaixo.
Bate à porta do 7ºA.
É isto que lhe sai.

Oh
Também te quero
E tanto eu espero
por te ver sorrir
sem sono
perco-me num trono
és rainha e princesa mesmo a dormir

E tanto para lá do que sinto
Não à palavras
De amor
Para descrever

E tanto para lá do que vejo
teu olhar e teu corpo
O teu ser como és

Tantas canções que eu podia cantar
não me chegam pra te contar
que te amo
que ainda me encantas
e me fazes respirar.

Eu sei que tanto esperas
por novas primaveras
mudanças promissoras
um tanto arrasadoras
talvez te devas sentar

Oh minha deusa
Lembras-te do que te disse
Que o meu coração
é difícil de domar

Mas eu estou aqui
Pra te pedir.......

Pra casar!

De joelho no chão, como deve ser.
O anel mais bonito que havia na ourivesaria.
Tinha certeza disso, passar uma hora a analisá-los um a um.

Sim....... Claro que sim.....
5 Anos, 5 ANOS, IDIOTA, que outra resposta te poderia dar?

Não sei, imaginei tudo.
O bom o mau e o assim assim....

Ah Camões, Já agora se me permites.
É fogo que arde sem se ver.
É chama que queima e não se sente.
E talvez um ponto se digne a pura e simplesmente terminar o conto.
Não sem antes, e viveram felizes para sempre.

Ponto.

Homem

Do edifício mais alto, coberto de insónia, fixa o homem a bruma das ruas, o atabalhoado trotear das gentes, fixa não por querer ver mas sim porque tal fadiga o mata, e ele fixa, na tentativa de dormir, descansado, só mais uma vez.

Na terra em que vivemos, nesta terra, existe um homem, aliás vários homens, que há noite olham por nós, dos edifícios mais altos, dizem que eles próprios construíram, mas é mentira, pagaram a outros homens, e máquinas, e mulheres para os fazerem, estes os homens que estão lá no topo, estão apenas lá porque o sono não lhes toca, são brilhantes, tal como as estrelas, mas querem sempre mais, mais brilho, como o sol, muito mais, para que na sua retaguarda nunca se veja sombra apenas mais luz, estes homens a quem o sono não toca, têm responsabilidade, em relação a todos, mas mais que tudo em relação ao capital, é o que chamam ao dinheiro, eles pensam em formas de fazer mais, eu que olho, com olhos de sonhador, para o alto dos seus edifícios penso que é preciso apenas, papel e uma máquina muito especial para fazer mais dinheiro, tal como tinta, mas eles não eles querem fazer mais sem papel, usam máquinas, e esquemas, mas muitas vezes máquinas, com muitos números, que se enrolam noutros números e dão números maiores, hoje a insónia debate numerários astronómicos, como o sol ou as estrelas, é por isso que vivem em majestosas torres, querem estar mais perto dos astros que tentam encandear com o próprio brilhantismo.

Hoje ele olha em busca de ideias, mas morre de sono, com medo que uma jogada errada os faça cair de tal torre, feita por eles, ou paga por eles, eles podem cair, como anjos sem asas, desamparados, caídos de cadeirão tão elevado que trespassa nuvens e toca o limite do céu, a fronteira entre o que é terrestre e o que ao vácuo impiedoso do espaço pertence.

As ideias deste ser custam dinheiro, a outros, a todos, por isso ele existe, é filho sem pai, sem mãe, é órfão adoptado por impiedoso capital, razão de viver, crescer mais alto que os outros para então cair, do cimo, sim porque este homem hoje consumido pelo sono e insónia luta por lugar em tal monte Olimpo, luta contra as suas próprias dores para nunca mais voltar a pisar o chão, luta, tal como nós que navegamos sobre a terra, trabalhamos para que ele possa ter ideias, trabalhamos para que ele não tenha que descer de seu pedestal, trabalhamos por mais que comida, água ou electricidade, trabalhamos para pequenos espasmos da vida lá em cima, por vislumbres da vista de tal ser, sem medo da subida ou da queda, mas ele que já está há tanto tempo lá em cima teme, teme por relembrar a tenebrosa relação com a gravidade, e ela ninguém lhe escapa, e tu não serás excepção, ó ser.

Cais-te.

Do edifício mais alto, coberto de insónia, fixa o homem a bruma das ruas, o atabalhoado trotear das gentes, fixa não por querer ver mas sim porque tal fadiga o mata, e ele fixa, na tentativa de dormir, descansado, só mais uma vez.

Homem, eu já vi muitos como tu cair, agora abandonados pelas ruas que caminho com honra de ser humano, pedem perdão e rastejam, puxados pela gravidade, pela realidade, pela terra, pela lama, pela areia e pela pedra que cobre os labirintos citadinos.

Não temas, homem, não temas, porque eu, ser que vez de cima, e eu que te olho de volta cá debaixo, estender-te-ei a mão e levantar-te-ei, ajudando-te a sacudir o pó que te cobre, e dir-te-ei que até os anjos caem.

Transições

O velho - Uma nota, só, na pauta não é musica tal qual uma gota não é oceano.

A razão assim prontinha o diz, bem engomadinha a racionalidade é o fraque do que é social o hábito aprumado do ansião a quem o tempo não mais preocupa, a fumar o seu cachimbo no cadeirão em pose pensada e aperfeiçoada ao longo de décadas, presunção de pensar que teria sido tudo num mero acaso, realidade é que esperava por tal situação, ao que o próximo gesto foi forçado, pensado e triturado pela massa encefálica, actor amador que ele é, um pito curvado de mogno e ouro que retirado da boca e apontando para o petiz irritado pela razão que suprema reina sobre o discurso do idoso.

O jovem - A razão que fala também diz que fumar mata, apreguar sem praticar é um desprazer auditivo e moralmente condenável.
O velho - Rapaz, rapaz, vieste até mim em busca de respostas não podes me culpar a mim se na realidade não era o que esperavas, quanto a mim não queres respostas, já as tens, o que procuras exactamente é aprovação.

E recosta-se numa posição de maior conforto pois a artrite estava a pesar sobre as suas costas que em soma com a cruz de uma vida lhe causam dores espontâneas e ensurdecedoras.

O jovem - Porque me daria eu então ao trabalho de aqui vir à procura de algo que sempre tive?
O velho - Negação, uma simples palavra, essa tarefa que te forças-te a praticar é uma coação desse mesmo sentimento, esse feeling se for mais palavra para os teus pastos.
A gaiola que prende a forma vulgar de não se ser ninguém mas querer ser tudo, é gradeada por esse irritante alarme, a negação é o mais puro fruto da aceitação, negamos o que somos na esperança que os outros aceitem o que não somos, mas se mentir-mos o suficiente a nós próprios tornamo-nos exactamente assim.
O jovem - Porque quereria eu a sua aceitação, "old man".
O velho - Chama-lhe dever antropológico ou mesmo social, quem sabe? Milhões de anos dizem-nos que nós "oldies" são quem se deve consultar para aquela decisão que nos tira o sono.
O jovem - Mas...
O velho - Não há mas, e acredita em mim, nem meio mas, deixa-me que te diga algo mais, lamentavelmente aquilo que sou ou que represento é altamente ultrapassado, mas não elimina estes anos todos de ouvidos bem abertos e olhos esbugalhados e observadores. Vocês jovens acabam por ser a minha televisão, rádio e revista, novelo enjeitado de novela, o meu passado e o nosso futuro, mudam os tempos mas não as vontades, essas são camaleões mascaram o nome mas são as mesmas ilusões.
O jovem - Eu não estou iludido, vou mesmo fazê-lo.
O velho - Faz, só tu podes ser o teu próprio dono não eu nem a tua mãe, tudo o que fiz foi pesar essa decisão, expandir a sua magnitude, pois conforme pender a tua decisão as réplicas serão imensas e devastadoras, e após esta conversa a mim só me irás desiludir se fores um cobarde e escolheres apenas por facilitismo sem nunca dormir e sonhar sobre o assunto.

O jovem assim o faz. E adulto se torna, o seu nariz tem novo dono, novo timoneiro, o mar é bravo mas de bravura se enche o peito, remédio escasso para as dores.

O adulto  - Sabes velhote não é com arrependimento que digo isto, mas tinhas razão, o peso é enorme, as milhares de possibilidades serpenteiam a minha mente como prostitutas as ruas, oferecem o mundo sem nunca mo garantirem, mas esta é a tua neta - e levanta o bebé na direcção dos céus - não a conheces-te mas ela vai-te conhecer a ti quando eu for velho, talvez sem o cachimbo que péssimo hábito, porque na terra também és vida, vida que faz crescer, esta semente é forte vem de raiz de embondeiro, esta semente é minha como eu fui tua primeiro.

O jovem agora adulto olha o céu e molha a terra, a lágrima é rio no rosto, a lágrima é dor no peito, olha para a filha olhos de vidro mas um sorriso por inteiro, com 6 meses apenas mas à 9 sem avô, a lage corta o chão como a ferida que nele não sarou, vida nova parece destino assim tinha que acontecer um sacrifício enorme para uma nova vida nascer. Na barriga de sua mãe o avô dedicou e lhe umas palavras, ” não fico cá mais tempo para me dares uma alegria, queria te ver nascer mas que não me vejas morrer, por isso é melhor assim, as palavras já me fogem, grãos de areia nos meus dedos, quero que saibas que sou velho e tolo, casmurro e irritante, serei o teu anjo da guarda e nunca estarei distante, e que a vida é, enfim, desconcertante, mesmo no fim o amor brota em mim, este sentimento abafa a dor e por isso morro feliz, amo-te."

E o velho que morre é vida, vida é brilhante. De bebé cresce o jovem, jovem a adulto transição para acabarmos à mesma sentados a conversar num cadeirão.