domingo, 30 de março de 2014

Aquele Poeta Chamado Esperança Parte I

Esta é a estória do poeta chamado Esperança, Joaquin Esperança, como tudo na sua vida até o seu nome assume o papel ridículo das ambiguidades despropositadas, Delinda Jesús sua mãe da Galiza vivia em portugal à 15 anos, num dia, numa dessas efemérides melindrosas conhece Arlindo Esperança, motorista de longo curso em autocarros internacionais, no acaso do amor a semente foi plantada numa paragem de Arlindo por Espinho após uma viagem Paris-Porto, dai o feto cresceu, o ser se criou, a água galgou a margem e na sua foz ele, Jô Esperança como viria a ser conhecido da primária à faculdade, Jô tinha tido a mais pacata das vidas, na mais pacata das aldeias do interior de portugal, a sua vida até este ponto tinha sido tão calma que até a universidade escolhida para frequentar foi nos Açores, primava por esse espírito de taciturno recatado e contemplativo, até este dia, nunca se tinha apaixonado ou sentido amor por ninguém para além de sua matriarca, e hoje foi bem diferente, todos os anos perto de onde vivia havia um enorme festival, esse festival atraia jovens, barulho, comoção e agitação algo que não gostava, mas que aguentava pela sazonalidade do mesmo, era para ele o marcar de calendário e uma oportunidade para observar outras gerações, não que ele fosse velho, fazia apenas 27 anos nesse mesmo mês, mas era um exercício que praticava todos os anos com algum gosto, pegava no seu carro e ia até Ponte de Lima, que era ponto de passagem para muitos dos festivaleiros, sentava-se numa esplanada por lá com um caderno preto escrevia o que via, analisava, fumava, bebia, para à noite voltar a casa e escrever poesia sobre como se sentia, dia percorrido até ao fim, chegara de manhã e voltava pela tardinha, no seu vagar fenomenal não transgredia uma regra de trânsito e nunca entrara numa auto-estrada porque não gosta de andar a mais de 80km/h, no seu percurso muitos dos jovens faziam-se ao caminho a pé em direcção ao destino do rock, do roll e do metal, ele já estaria habituado a toda essa peregrinação pedonal ano após ano, todos eles quando vêm um carro só com um ocupante tentam a sua sorte e estendem o polegar em direcção à estrada, todos eles são ignorados por Esperança, excepto uma rapariga com uma mochila volumosa e enorme às costas apoiada apenas por uma alça pois a outra estaria rebentada, ela caminhava lentamente e fora de grupo, coisa incomum, estava sozinha, ao aproximar-se reparou que ela além de tudo isso apresentava um passo débil e esforçado, coxeava da perna esquerda, o mesmo lado em que a alça rebentara, passa por ela e continua a olhar pelo espelho retrovisor o aspecto desta pessoa, na sua cabeça pensa e se for uma pessoa maléfica e o queira assaltar ou pior, mas ao mesmo tempo e se for uma pessoa de índole benigna que mereça ser ajudada nesta hora de sacrifício, encosta o carro na borda uns passos à frente da rapariga e ela vê ignora e continua, ele não percebe, e no seu cérebro certamente ela terá uma razão ela nem sequer pediria boleia logo porque haveria de a aceitar algo que não requisitou, mas, ele tinha ficado curioso sobre toda a história, e começara a construir suposições na sua cabeça, será que foi atropelada, um carro lhe tocou de raspão, arrastada, e com o olhar, o do costume, contemplava possibilidades piores, mais graves, será que teria sido abusada, violada, a bem ver é tão perigoso deixar entrar um desconhecido no automóvel como entrar no automóvel de um desconhecido, é um pau com dois bicos extremamente afiados, desliga o carro e no momento em que abre a porta a rapariga larga a mochila e começa a correr até cair de dor no meio do chão, ele pará ao lado do carro e grita, - DESCULPA SE TE ASSUSTEI, NÃO TENCIONO FAZER-TE MAL, PERMITE-ME PELO MENOS CHAMAR O 112 PARA TE PRESTAR AUXILIO. Ela responde, - NÃO É PRECISO. Levanta-se num queixume agoniante, e volta atrás para recuperar a bagagem, nisto ele dá um passo em frente, - NÃO SE APROXIME POR FAVOR, OBRIGADO, MAS PODE CONTINUAR A SUA VIAGEM. Ele não consegue e vai dando pequenos passos no drama de ajudar, no pânico intenso de não saber o que fazer ele volta a tentar, - Ouve eu tenho um amigo que é enfermeiro em Ponte de Lima, ele pode ajudar, prometo que não te faço mal, tu não estás nada bem e pelo aspecto dessa mancha vermelha diria que estás a perder sangue, se não confias em mim por favor deixa-me chamar uma ambulância para que possas ser assistida, estás mesmo muito mal, por favor. Ela não responde, os passos que dá estão cada vez mais esforçados, agarra na mochila e dá meia volta, virando-lhe as costas, no movimento circular a pressão sobe-lhe à cabeça, o corpo impulsionado pelo peso astronómico da mochila cai desamparado na terra. -Bolas, hey, hey, acorda, estás bem? ESTÁS BEM?, corre na sua direcção, verifica-lhe o pulso, fraco muito fraco, a ferida aberta na sua anca esquerda expelia sangue fresco,  demasiado sangue, e tal como ouvira alguém dizer um dia, o sangue é para ficar dentro do corpo, é preciso, tira-lhe o peso de cima para a ajudar a respirar e com a sua camisa faz um garrote envolvendo o ferimento, pega nela com ambos os braços e transporta-a até ao carro, pousa-a no banco de trás ajustando a posição de forma a ser a mais natural possível deitada, arranca em direcção à mochila e num remoinho de adrenalina incontrolável sai pega na mochila atira para o banco do pendura e prego a fundo directo ao Hospital Conde de Bertiandos onde o seu amigo trabalha, até hoje o ponteiro do velocímetro nunca tocara os 100km/h muito menos os 180km/h a que agora circulava, ele não pensava limitava-se a agir atabalhoadamente é certo nunca treinara estes reflexos primordiais, pára apenas em frente à entrada das urgências à sua frente uma ambulância que se preparava a arrancar os bombeiros muito mais atentos e preparados rapidamente somam o dois mais dois e quando Jô salta do carro e grita socorro eles já tinham entrado em modo emergência um agarra na maca enquanto o outro abre a porta de trás para extrair a pessoa sinistrada nisto o pedido de SOS já tinha alarmado um grupo de médicos e enfermeiros que fumava ali perto que prontamente se juntaram à comitiva que em passada larga acompanhava a paciente hospital a dentro, Esperança corre atrás deles até o segurança o bloquear, -Calma daqui para a frente a sua esposa está em boas mãos tenho a certeza que vão fazer tudo o que poderem, o que você pode fazer é tirar o seu veiculo dali que pode chegar outra pessoa em urgência e depois voltar para se fazer a ficha. - Ahhhh sim sim... Faz todas as manobras necessárias e estaciona no parque do Hospital, desliga o motor e respira fundo ainda com as mãos no volante, tudo começa a voltar ao normal o efeito da epinefrina estava a passar, no seu pensamento refazia o puzzle dos últimos minutos da sua vida, e relembrava que não sabia nada sobre a rapariga que acabara de dar entrada, esposa, porque pensaria o vigilante que seria sua esposa, Jô Esperança casado seria algo de completamente novo, o medo que tocava-lhe a alma ao enxergar algo tão sinuoso como uma relação amorosa, mas agora não é tempo nem local para desenvolver esses sentimentos, precisa de encontrar algo que identifique a rapariga de forma a legalizar a situação junto das autoridades competentes. Procura na mochila da rapariga por uma carteira com identificação, bolsa após bolsa, recanto após recanto, até dar com um livro e um caderno por trás de um dos fechos laterais, pega-o na curiosidade de ver o autor quando vira a capa frente aos olhos quase entra em choque o livro era seu...

Continua.....

sábado, 15 de março de 2014

Tela

No canto do quarto chora, olhos de vidro, olha em frente sem perder da mente que o branco omnipresente do espaço quadrado que forma a tela tem apenas um pequeno ponto negro, minúsculo diria dois milímetros ponta de caneta, ponta de iceberg.

Ah tanto para pintar, desenhar, escrever, imagina só se cada um desses sentimentos que remoinham dentro da cabeça fossem golpes de arte, de técnica, se formassem em geometrias abstractas, faces, membros, flores, jardins, se tudo isso fosse assim tão claro.

Claro que sim, que é, mas no entanto ela parada em êxtase de apatia o climax de não ser nada e querer imediatamente ser tudo, que o amor fosse um circulo, a morte um quadrado, a dor, a dor...

Bolas nem eu que aqui parado a pairar sobre o que na minha imaginação ferve, eu que denomino-me como alguém dono de algumas palavras que empresto aos outros consigo perceber, agarrar, morder, provar e descrever a miséria de sentir a katana que subtilmente nos quebra pele de dentro para fora e mesmo que tivesse essa descrição tão límpida e desempenada na minha cabeça algo me provoca nojo no definir eternamente algo desta magnitude, iria generalizar, ser um dicionário tão kitsch e inútil que poderia desistir de cadernos, folhas, guardanapos em conjunção com a caneta, mas o que digo tornaria a sua missão mais confusa e árdua.

O mundo desaba ao seu redor, o seu mundo isto dito, tenho a certeza que algures no mundo um músico dedilha emoção no mais puro esgalhanço de guitarra, um poeta entra em espiral de auto-comiseração e esgravata o verso apelidado morte, e um actor olha esse apelido nos olhos engole em seco e saca da cartola a mais perfeita interpretação de macbeth, tenho a certeza que tu, ai entrelaçada sobre ti, cabeça sobre os joelhos, ai nesse canto poeirento, procuras não por respostas mas por gestos imagens, compões toda essa torrente de sentimentos dentro da tua cabeça, visualizas não analisas, procuras os contornos certos.

O horror que tão próximo te tocou o rosto do merdas que levou quem amavas, a alma dessa pessoa que contorno tem?

É um sorriso para mais tarde recordar? Não, não para isso tens fotos, quais são os contornos de um coração que agora inerte não te chama mais, um corpo que deixa de crescer, amar, falar, gostar, imaginar, pensar e te acompanhar, o egoísmo que te percorre o ego atormentado por tudo o que ficou por dizer, tudo o que resta está à tua frente, homenagem, tem que ficar perfeito.

Pega, vamos, pega, é um simples lápis, eu sei começa simples, traceja o horizonte, o sol, e algumas nuvens, tenho a certeza que nem tudo foi sempre céu azul entre vocês, pega este pincel, e com cada linha um detalhe dos seu corpo, o vestido que adorava, flores e tudo, cores vibrantes.

Toma limpa o rímel horrível que te escorre na cara, e desenha-te a ti, exactamente com isso, com lágrimas e pintura facial, porque não, o toque de ironia, certamente melhor preito não lhe poderias dar, envolve-te nos seus braços vagamente como se fosses tu que tivesses desaparecido, como se ela ainda cá estivesse, e por boa dose um balão de pensamento, eu sei eu sei, é um quadro é suposto ser para interpretação e não ter explicação, mas que se foda o quadro é teu, e escreve simplesmente amo-te.

Agora sim chora, chora muito, fixa a imagem na tua cabeça, pega no isqueiro e queima esse quadrado, queima mesmo.

Tu sabes, eu sei, todos nós sabemos que tal como o quadro nada dura para sempre, facto da vida, isto não é uma lição de vida, não é filosofia de bolso ou mordomia de escape, isto é o que ficou por fazer, isto é o que ficou por dizer, isto é o ultimo capitulo, isto é o teu mundo mais pequeno simplesmente sem nada por dizer, sem nada por fazer, não é o discurso do filme, nem o choro de carpideira, é a tua mensagem enviada e entregue ao vazio onde ela agora mora, gravada, profundamente no núcleo do que és, o bloco de cimento na tua estrutura, vive, vive muito, e quando voltares a sorrir lembra-te, lembra-te dessa imagem, respira fundo, e continua a sorrir.

Ser feliz não é desrespeitar, ser feliz é amar essa memória, é beijar na cara a história e ter o prazer de recordar.

Agora chora até não poderes mais, porque quem não chora são os anormais....

sexta-feira, 14 de março de 2014

Impar

ohhhh pensamento tacanho
que agarrado ao engenho
e ao mesmo nó que vos fez sangrar
aquele caminho que todos se apreçam a estipular
sem entenderem que sou ímpar
não entendem o que me faz voar
e se eu definho em meus próprios termos
agarrado à vontade que todos temos
e à simplicidade de navegar
de ir ao mar e deixar-me levar
sou a pétala branca na rosa negra
o ponto de luz que quebra a regra
que todos comentam em surdina
e grita a mensagem voz de ardina
que só a vossa verdade é sepulcral
e o que sinto? o que sinto é irreal?
façam manchetes de opinião
gritem em plena multidão

que sou eu que tenho que mudar
só eu tenho que mudar

descansem a voz porque não vos ouço
estão atirar pedras para o fundo do poço
que eu com o orgulho de um pequeno moço
já construí o meu próprio troço

da estrada que me vai levar 

essa vertigem de que me aproprio
de quem no calor adora o frio
de quem ama com medo de amar
canta com vontade de chorar
luta sem ter o que lutar
e se me perco na vontade de criar?
eu não sou definição quadrada
sou uma espada cruzada
com a rosa cravejada de espinhos grossos para cortar
com um telemóvel ao centro
para me ligar ao conhecimento
que para mim é tão importante como respirar
eu sou o que se opõe a mim
que me berra aos ouvidos nas noites sem fim
com insónias por terminar

julguem o que quiserem, julguem-me paneleiro
Cinderela, palhaço, opressivo que sobe ao poleiro
e grita do cimo de pau feito
que este mundo imperfeito
é uma merda que vocês me deram
e que recusam se responsabilizar
que eu no amâgo sou cobarde do próprio medo de mudar

e eu que nem me defino como poeta
mas como o dedo do meio que no ar se espeta
decidi poetizar