domingo, 26 de janeiro de 2014

Lágrima



Eu sei que ai estás. No fundo eu consigo-te sentir, no fundo consigo te tocar, eu sei , eu sei, que isto não é verdade, e a alma doí, sinto que uma agulha rebentou a sua camada exterior e agora palavra a palavra o conteúdo esvaísse no papel, sinto que a morte de tudo aquilo que escrevo é premeditada e oposta-mente impaciente, é como se o meu coração, acelerado, bate-se de encontro a uma pequena agulha alojada nas paredes do meu externo, a cada batimento uma dor invade o sangue, essa dor é bombeada pelo meu corpo e envolve-me num manto escuro, comovido a lágrima ameaça romper, e eu deixo, eu quero que vá que me inunde, que me traga ao lugar seguro que é amuar.


No fim quando primo o ultimo carácter é como se um enorme rompimento me tivesse atravessado, e uma dor mantém-se no corpo, é ínfimo, e invisível e eu não sei o que fazer ando ás voltas a contornar fantasmas respiração ofegante, é como se quisesse chorar, é como se quisesse correr, é como se quisesse voar, é como se quisesse dormir, encolher, esconder, murmurar. A dor é tão grande, que provavelmente começaria a correr, desleixadamente, caísse, me enrolasse, me escondesse, levantasse e saltasse, parasse, e ficasse a olhar o céu cinzento, breu, a chova molhar-me-ia a cara e eu ficaria exausto, cansado, e o que sentisse não fosse nada para além da ferida que o meu músculo mais importante contrairia no palpitante, a dormência penetrava o cada membro encoberto de fraqueza.


Talvez um beijo ou um abraço talvez isso fosse a cura perfeita, a voz de mansinho a recitar poesia, Neruda, talvez ele provoca-se quadras de razão no soneto que percorreria a minha própria ilusão, encapuçado artista, enrolado no papel da vida sem alma absorto o seu verso seria alegre, porque aos meus ouvidos tudo soaria como choro, tudo seria absurdo e redondo, eu reflectiria algo mais do que eu próprio ao olhar o espelho.


E a lágrima devora-me mais do que chuva a lágrima despeja sobre mim mais do que um cientista sobre o microscópio conseguiria ver, a lágrima leva na sua composição tanta coisa, leva tudo o que nos faz melhores, HUMANOS, chorar quando aquela personagem no filme morre, chorar pelo nosso animal de estimação, amigo, familiar, ídolo, tudo isso é normal, e um homem que não chora não sente, é simples, a lágrima é a expressão máxima do ser, a prova que temos mais do que coração, corpo e mente, que temos algo que não se vê no raio-x, não é uma parte do cérebro, não é química, não é física, não é biologia, é a alma.

Poema XX, Pablo Neruda

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche. 
Escribir, por ejemplo: " La noche está estrellada,  
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos". 

El viento de la noche gira en el cielo y canta. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Yo la quise, y a veces ella también me quiso. 

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.  
La besé tantas veces bajo el cielo infinito. 

Ella me quiso, a veces yo también la quería.  
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido. 

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.  
Y el verso cae al alma como pasto el rocío. 

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.  
La noche está estrellada y ella no está conmigo. 

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.  
Mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Como para acercarla mi mirada la busca.  
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo. 

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.  
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.  
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. 

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.  
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.  
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido. 

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,  
mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,  
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo. 

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