sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Torre

Hoje sonhei. É raro os sonhos me voltarem à memória mas a marca que este me deixou queimada no córtex, fez-me lembrar.

Ao início senti que voava, o corpo leve, o vento batia-me na cara e o frio era intenso, mas ao olhar em meu redor apercebi-me que a realidade era macabra, estava parado sobre um precipício, que ao mesmo tempo era ilha, uma torre rochosa elevada uns cem metros sobre o mar. No topo eu sobre um bocadinho de relva pouco mais de um metro de diâmetro, 360 graus à minha volta só enxergava azul. O oceano circundante enraivecido investia sobra a base que me suspendia, a cada onda tudo vacilava, eu, a erva e as rochas. Ao fundo o sol, esmurecia no horizonte, e eu contava os últimos minutos do seu calor, sabia que a noite traria mais incerteza à minha posição. Sentei-me na borda e vislumbrei o apagar da estrela mãe senti que seria a última vez. Durante o crepúsculo as nuvens aproximam-se e com elas a chuva cai. Revolta a maré atacava vigorosamente e eu lá no alto sentia a água prosafanão atingir-me. Terremoto, agarrei-me, mesmo sabendo que de nada valia, eis quando tudo desaba eu, a erva e as rochas, tomba-mos sobre a espuma, na corrente viajei até o ar me faltar, sem acordar. Sobre mim a fúria neptuniana, arrastava-me contra as pedras que outrora me suspenderam, vezes sem fim.
Ai eu despertei, sem desespero, sem sobressalto, limitei a abrir os olhos e no tecto sombras da manhã. Não procurei por ar, não entrei em pânico, aceitei a derrota e abracei a calma.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Lágrima



Eu sei que ai estás. No fundo eu consigo-te sentir, no fundo consigo te tocar, eu sei , eu sei, que isto não é verdade, e a alma doí, sinto que uma agulha rebentou a sua camada exterior e agora palavra a palavra o conteúdo esvaísse no papel, sinto que a morte de tudo aquilo que escrevo é premeditada e oposta-mente impaciente, é como se o meu coração, acelerado, bate-se de encontro a uma pequena agulha alojada nas paredes do meu externo, a cada batimento uma dor invade o sangue, essa dor é bombeada pelo meu corpo e envolve-me num manto escuro, comovido a lágrima ameaça romper, e eu deixo, eu quero que vá que me inunde, que me traga ao lugar seguro que é amuar.


No fim quando primo o ultimo carácter é como se um enorme rompimento me tivesse atravessado, e uma dor mantém-se no corpo, é ínfimo, e invisível e eu não sei o que fazer ando ás voltas a contornar fantasmas respiração ofegante, é como se quisesse chorar, é como se quisesse correr, é como se quisesse voar, é como se quisesse dormir, encolher, esconder, murmurar. A dor é tão grande, que provavelmente começaria a correr, desleixadamente, caísse, me enrolasse, me escondesse, levantasse e saltasse, parasse, e ficasse a olhar o céu cinzento, breu, a chova molhar-me-ia a cara e eu ficaria exausto, cansado, e o que sentisse não fosse nada para além da ferida que o meu músculo mais importante contrairia no palpitante, a dormência penetrava o cada membro encoberto de fraqueza.


Talvez um beijo ou um abraço talvez isso fosse a cura perfeita, a voz de mansinho a recitar poesia, Neruda, talvez ele provoca-se quadras de razão no soneto que percorreria a minha própria ilusão, encapuçado artista, enrolado no papel da vida sem alma absorto o seu verso seria alegre, porque aos meus ouvidos tudo soaria como choro, tudo seria absurdo e redondo, eu reflectiria algo mais do que eu próprio ao olhar o espelho.


E a lágrima devora-me mais do que chuva a lágrima despeja sobre mim mais do que um cientista sobre o microscópio conseguiria ver, a lágrima leva na sua composição tanta coisa, leva tudo o que nos faz melhores, HUMANOS, chorar quando aquela personagem no filme morre, chorar pelo nosso animal de estimação, amigo, familiar, ídolo, tudo isso é normal, e um homem que não chora não sente, é simples, a lágrima é a expressão máxima do ser, a prova que temos mais do que coração, corpo e mente, que temos algo que não se vê no raio-x, não é uma parte do cérebro, não é química, não é física, não é biologia, é a alma.

Poema XX, Pablo Neruda

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche. 
Escribir, por ejemplo: " La noche está estrellada,  
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos". 

El viento de la noche gira en el cielo y canta. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Yo la quise, y a veces ella también me quiso. 

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.  
La besé tantas veces bajo el cielo infinito. 

Ella me quiso, a veces yo también la quería.  
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido. 

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.  
Y el verso cae al alma como pasto el rocío. 

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.  
La noche está estrellada y ella no está conmigo. 

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.  
Mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Como para acercarla mi mirada la busca.  
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo. 

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.  
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.  
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. 

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.  
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.  
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido. 

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,  
mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,  
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Raiva

Através da minha íris, fiquei propenso ao sabor das ondas do mar, suspenso na sua fúria dilacerante, no caso de amar e desprezar, talvez o caso seja que perante mim e a encobrir os meus olhos um manto negro, cego, cor que parte a lógica e guia aquilo que digo e penso, é irracional e palpitante, frustrado, incoerente, ofuscado pelo nada.
A Raiva!
A voz miudinha do mata e esfola, concentrada num único objectivo, numa única personagem, mais grave, muito mais grave, num ser como eu.
Eis quando a minha consciência folheia pelas páginas que o meu pensamento vai escrevendo com letra esquizofrénica , e se apercebe, que todo o meu poder destrutivo é direccionado a uma pessoa, a minha mão congela, cai sobre o meu colo, braço dormente quando a voz grita desesperada "ATACA", berra aos meus ouvidos cada vez mais forte, cresce, este sentimento para si é terra, água e luz, prospera até se tornar incessante, mas eu caído não encontro forças para mais,
Sobre a mesa, sobre o caderno, sobre tudo, sangue, sangue derramado, pergunto este sangue? Este sangue é meu?
A voz indignada responde "Sim", acalma-se, mas continua "cobarde, é sempre assim, sempre, mais uma vez escolhes fugir, mais uma vez escolhes me esconder dentro de ti".
O sangue escorre pela palma da mão e eu incrédulo observo a torrente, como fiz isto? Sem sentir dor? Sem pensar? Sem querer? Um milhão de questões sem resposta correm pelas minhas sinapses na esperança que a dança entre os hemisférios haja réplica ao que acabou de acontecer.
Não é tempo para niilismos tenho que continuar, tento pegar a caneta com a mão esquerda, levanto-a, a minha bandeira e logo sobre mim comportas abertas as palavras que escondi no cofre, dentro do cofre, dentro de outro cofre, numa caixa de madeira pinho pobre, as conjugações pérfidas, de ignóbil valor, vis, ressabiadas, aquelas que considero malditas e maldizentes, agora que se formam na tinta da caneta sobre o papel manchado.
O golpe é profundo da outra palma jorra a seiva que considero vida, levanto ambas e olho-as sobre a minha cabeça em frente à luz artificial, a lâmpada é o meu deus ateu, aquela que apaga a escuridão na noite sem fim, inquiro existencialismo sobre a mesma, porquê? Eu não sou mártir! Mas a raiva é minha, por isso eu julgo-me e com uma celeridade devastadora condeno-me, o turbilhão de sentimentos é chama na fornalha que derrete a essência que há em mim, a minha alma, que começa a ficar irrequieta bem no centro do meu peito, a voz entra em reboliço e em plenos pulmões protesta "NÃO, NÃO, EU SEI O QUE ESTÁS A PENSAR, A CULPA NÃO É NOSSA", agarro com toda a força a espada, os meus membros encarnados não deixam vislumbrar nem um prenuncio de pele, afiada, aponto o meu âmago, o ardor a aprofundar os lanhos nas minhas mãos, sinto cada centímetro, o cortar da pele, o talhar do músculo, o quebrar do osso, o penetrar da alma, o fluxo sanguíneo jorra sobre mim, quente, impaciente, deixa-me e leva a vida, a voz cala-se, e eu encosto-me na cadeira, a esferográfica é ilha em rio vermelho, a cabeça revolve sobre o pescoço e cai para trás, acabo a fixar o tecto, e respondo "A raiva é minha, só minha" vejo de novo, mesmo a tempo de ver o candeeiro acender a escuridão.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Falível

E quando mordemos o pó doentio da vergonha? E sem saber embaraçado recolho-me na pequena bola da minha maior falha.
Não tenho orgulho nisto que faço por aqui, o blog tem 3 anos, o livro da voz 5, o toma café comigo 6, o memórias está parado à quase 3 intocado, e se alguma vez me promovi foi pelo texto aqui, Re(conhecer), mas pela simples razão de que é mais dos outros que meu, a minha música é uma mancha que apenas trago a baila por gabarolice idiota. Medo talvez, medo de alguém não gostar, medo de ser mediano e não fantástico, medo de o que gosto realmente ser irrelevante e de mais uma vez ser destruído por comentários de gente torta que me destruam a vontade e sabor por fazer isto, mesmo sabendo que qualquer critica que possam tecer, não construtiva, eu consigo dissecar e agarrar pela espinha vil e pérfida de uma forma corrusiva e insultuosa, mas no fim depois de a raiva passar e a poeira assentar aquele que vive dentro de mim cairá na ratoeira de ouvir os meus pensamentos mais inseguros, ele será a esponja de todas as dores e vulnerável outra vez seguirá o caminho cabisbaixo dos seres sencientes revogados à réstia de orgulho primordial dos prazeres simples. E aqui arrisco cair numa contradição mas reconhecimento é ao mesmo tempo algo com que lido não lido bem, não sei me comportar quando me elogiam ou assumo a postura de um snob enfactuado com o seu próprio ego ou de alguém que está sobre ataque cerrado em que cada ponta de enaltecimento é seta no alvo e contorcendo a face em mil e uma caretas de angústia.
Em suma parei na bifurcação mais horrenda medo do falhanço e medo do sucesso, em que a única coisa que teria a meu favor era o facto de puder partilhar com mais de vós aquilo que adoro e possivelmente inspirar uma criatura mais preparada que eu para o criar grandeza, e que eu maravilhado feito fã e mau mentor possa sacudir de mim mérito enquanto me delicio con a vossa obra.
Como sou falível.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sejamos

Fazemos assim, deixa-mos de lado tudo o que não nos impressiona, pousa-mos o pesado fardo que carrega-mos para trás e para a frente, no culminar de toda a desilusão e desce-mos desse poiso doirado, não vamos meter mais santos em altares.
E porque não subirmos Andes, os Pirenéus, os Himalaias, a Estrela e o Pico, partir numa aventura tão épica que o coração palpite feito cavalo de corrida, solto na lezíria.
Façamos da dunas camas, e das camas dunas, explore-mos o mundo sem sermos turistas como se pertencêssemos a todos os locais e o ame-mos como o nosso lar, como se o nosso espaço desaparecesse e se torna-se o espaço de todos tão cheio de tudo.
Que a nossa gastronomia se transforma-se, e o pequeno almoço fosse um "bounjour" em forma de croissant quente, ao almoço polvilhássemos a "saudade" na sardinha assada, com um copo cheio do mais "legal" café para o fim da refeição, e o lavássemos com o "amaro" amaretto para que envoltos em nostalgia pudéssemos apreciar o "Sonnenuntergang" com um chocolate quente a aquecer os dedos, para o jantar ouvirmos "Konbanwa" ao sabor do sake e Soba, e nos deitássemos com o fundo cinzento e melancólico da chuva e um "hello" entornado sobre um copo cheio de guinness ao som do " Where The Streets Have No Name" e ficássemos por ali donos do mundo, do planeta, deste espaço aparentemente infinito mas cada vez mais pequeno.

Que por um dia nas nossas palmas a linha longa seja o equador e talvez estejamos acompanhados por uma guitarra de fado a aturdir as mágoas, talvez seja ai que o meu corpo queira estar e parar, comer o ar e respirar os sabores.

Por muito português que o BI diga que sou, por muito que me diga que este jardim à beira mar plantado é o local mais bonito do mundo, algo me pede mais.

"Eu(Tu)"

De quando em vez
aquilo que és
é fresco e difuso
raro e confuso

de vez em quando
o caminho onde ando
é travo amargo
de sonho largo

daquilo que não mudo
sejamos aquilo que queremos
aquilo que vivemos e desejamos
para nós e para o mundo

ninguém pode ser rei
de definições e de lei
daquilo que sentimos
e no âmago ouvimos

somos nós
e mesmo a sós
miramos o céu
e gritamos és meu

eu quero ser
eu sou sem o saber
a terra que piso
que sem aviso

me viu nascer
me viu sofrer

me viu saborear
todos os passos
beijos, amassos
que me fez sobrevoar

asas nos pés
aquilo que és
só te cabe a ti
definir, atribuir, sentir e dizer que sim.