segunda-feira, 23 de junho de 2014

Lugar

Uma fotografia, uma música - J.P. Simões – Se Por Acaso ( Me Vires Por Aí ), um poema, uma memória, um lugar


Muito pouco mudou
Mas pouco bastou
Para eu reparar
Ainda é o mesmo lugar


Apesar de tudo
Paro e olho, mudo
Por ainda me lembrar
É realmente o mesmo lugar


De adolescente a homem
Memória e tempo ainda moem
Aquele beijo que ousou terminar
E fazem-me voltar a este lugar


Nem eu esqueci o primeiro
Talvez o único verdadeiro
E na esperança de voltar a amar
Não esqueço este lugar

domingo, 30 de março de 2014

Aquele Poeta Chamado Esperança Parte I

Esta é a estória do poeta chamado Esperança, Joaquin Esperança, como tudo na sua vida até o seu nome assume o papel ridículo das ambiguidades despropositadas, Delinda Jesús sua mãe da Galiza vivia em portugal à 15 anos, num dia, numa dessas efemérides melindrosas conhece Arlindo Esperança, motorista de longo curso em autocarros internacionais, no acaso do amor a semente foi plantada numa paragem de Arlindo por Espinho após uma viagem Paris-Porto, dai o feto cresceu, o ser se criou, a água galgou a margem e na sua foz ele, Jô Esperança como viria a ser conhecido da primária à faculdade, Jô tinha tido a mais pacata das vidas, na mais pacata das aldeias do interior de portugal, a sua vida até este ponto tinha sido tão calma que até a universidade escolhida para frequentar foi nos Açores, primava por esse espírito de taciturno recatado e contemplativo, até este dia, nunca se tinha apaixonado ou sentido amor por ninguém para além de sua matriarca, e hoje foi bem diferente, todos os anos perto de onde vivia havia um enorme festival, esse festival atraia jovens, barulho, comoção e agitação algo que não gostava, mas que aguentava pela sazonalidade do mesmo, era para ele o marcar de calendário e uma oportunidade para observar outras gerações, não que ele fosse velho, fazia apenas 27 anos nesse mesmo mês, mas era um exercício que praticava todos os anos com algum gosto, pegava no seu carro e ia até Ponte de Lima, que era ponto de passagem para muitos dos festivaleiros, sentava-se numa esplanada por lá com um caderno preto escrevia o que via, analisava, fumava, bebia, para à noite voltar a casa e escrever poesia sobre como se sentia, dia percorrido até ao fim, chegara de manhã e voltava pela tardinha, no seu vagar fenomenal não transgredia uma regra de trânsito e nunca entrara numa auto-estrada porque não gosta de andar a mais de 80km/h, no seu percurso muitos dos jovens faziam-se ao caminho a pé em direcção ao destino do rock, do roll e do metal, ele já estaria habituado a toda essa peregrinação pedonal ano após ano, todos eles quando vêm um carro só com um ocupante tentam a sua sorte e estendem o polegar em direcção à estrada, todos eles são ignorados por Esperança, excepto uma rapariga com uma mochila volumosa e enorme às costas apoiada apenas por uma alça pois a outra estaria rebentada, ela caminhava lentamente e fora de grupo, coisa incomum, estava sozinha, ao aproximar-se reparou que ela além de tudo isso apresentava um passo débil e esforçado, coxeava da perna esquerda, o mesmo lado em que a alça rebentara, passa por ela e continua a olhar pelo espelho retrovisor o aspecto desta pessoa, na sua cabeça pensa e se for uma pessoa maléfica e o queira assaltar ou pior, mas ao mesmo tempo e se for uma pessoa de índole benigna que mereça ser ajudada nesta hora de sacrifício, encosta o carro na borda uns passos à frente da rapariga e ela vê ignora e continua, ele não percebe, e no seu cérebro certamente ela terá uma razão ela nem sequer pediria boleia logo porque haveria de a aceitar algo que não requisitou, mas, ele tinha ficado curioso sobre toda a história, e começara a construir suposições na sua cabeça, será que foi atropelada, um carro lhe tocou de raspão, arrastada, e com o olhar, o do costume, contemplava possibilidades piores, mais graves, será que teria sido abusada, violada, a bem ver é tão perigoso deixar entrar um desconhecido no automóvel como entrar no automóvel de um desconhecido, é um pau com dois bicos extremamente afiados, desliga o carro e no momento em que abre a porta a rapariga larga a mochila e começa a correr até cair de dor no meio do chão, ele pará ao lado do carro e grita, - DESCULPA SE TE ASSUSTEI, NÃO TENCIONO FAZER-TE MAL, PERMITE-ME PELO MENOS CHAMAR O 112 PARA TE PRESTAR AUXILIO. Ela responde, - NÃO É PRECISO. Levanta-se num queixume agoniante, e volta atrás para recuperar a bagagem, nisto ele dá um passo em frente, - NÃO SE APROXIME POR FAVOR, OBRIGADO, MAS PODE CONTINUAR A SUA VIAGEM. Ele não consegue e vai dando pequenos passos no drama de ajudar, no pânico intenso de não saber o que fazer ele volta a tentar, - Ouve eu tenho um amigo que é enfermeiro em Ponte de Lima, ele pode ajudar, prometo que não te faço mal, tu não estás nada bem e pelo aspecto dessa mancha vermelha diria que estás a perder sangue, se não confias em mim por favor deixa-me chamar uma ambulância para que possas ser assistida, estás mesmo muito mal, por favor. Ela não responde, os passos que dá estão cada vez mais esforçados, agarra na mochila e dá meia volta, virando-lhe as costas, no movimento circular a pressão sobe-lhe à cabeça, o corpo impulsionado pelo peso astronómico da mochila cai desamparado na terra. -Bolas, hey, hey, acorda, estás bem? ESTÁS BEM?, corre na sua direcção, verifica-lhe o pulso, fraco muito fraco, a ferida aberta na sua anca esquerda expelia sangue fresco,  demasiado sangue, e tal como ouvira alguém dizer um dia, o sangue é para ficar dentro do corpo, é preciso, tira-lhe o peso de cima para a ajudar a respirar e com a sua camisa faz um garrote envolvendo o ferimento, pega nela com ambos os braços e transporta-a até ao carro, pousa-a no banco de trás ajustando a posição de forma a ser a mais natural possível deitada, arranca em direcção à mochila e num remoinho de adrenalina incontrolável sai pega na mochila atira para o banco do pendura e prego a fundo directo ao Hospital Conde de Bertiandos onde o seu amigo trabalha, até hoje o ponteiro do velocímetro nunca tocara os 100km/h muito menos os 180km/h a que agora circulava, ele não pensava limitava-se a agir atabalhoadamente é certo nunca treinara estes reflexos primordiais, pára apenas em frente à entrada das urgências à sua frente uma ambulância que se preparava a arrancar os bombeiros muito mais atentos e preparados rapidamente somam o dois mais dois e quando Jô salta do carro e grita socorro eles já tinham entrado em modo emergência um agarra na maca enquanto o outro abre a porta de trás para extrair a pessoa sinistrada nisto o pedido de SOS já tinha alarmado um grupo de médicos e enfermeiros que fumava ali perto que prontamente se juntaram à comitiva que em passada larga acompanhava a paciente hospital a dentro, Esperança corre atrás deles até o segurança o bloquear, -Calma daqui para a frente a sua esposa está em boas mãos tenho a certeza que vão fazer tudo o que poderem, o que você pode fazer é tirar o seu veiculo dali que pode chegar outra pessoa em urgência e depois voltar para se fazer a ficha. - Ahhhh sim sim... Faz todas as manobras necessárias e estaciona no parque do Hospital, desliga o motor e respira fundo ainda com as mãos no volante, tudo começa a voltar ao normal o efeito da epinefrina estava a passar, no seu pensamento refazia o puzzle dos últimos minutos da sua vida, e relembrava que não sabia nada sobre a rapariga que acabara de dar entrada, esposa, porque pensaria o vigilante que seria sua esposa, Jô Esperança casado seria algo de completamente novo, o medo que tocava-lhe a alma ao enxergar algo tão sinuoso como uma relação amorosa, mas agora não é tempo nem local para desenvolver esses sentimentos, precisa de encontrar algo que identifique a rapariga de forma a legalizar a situação junto das autoridades competentes. Procura na mochila da rapariga por uma carteira com identificação, bolsa após bolsa, recanto após recanto, até dar com um livro e um caderno por trás de um dos fechos laterais, pega-o na curiosidade de ver o autor quando vira a capa frente aos olhos quase entra em choque o livro era seu...

Continua.....

sábado, 15 de março de 2014

Tela

No canto do quarto chora, olhos de vidro, olha em frente sem perder da mente que o branco omnipresente do espaço quadrado que forma a tela tem apenas um pequeno ponto negro, minúsculo diria dois milímetros ponta de caneta, ponta de iceberg.

Ah tanto para pintar, desenhar, escrever, imagina só se cada um desses sentimentos que remoinham dentro da cabeça fossem golpes de arte, de técnica, se formassem em geometrias abstractas, faces, membros, flores, jardins, se tudo isso fosse assim tão claro.

Claro que sim, que é, mas no entanto ela parada em êxtase de apatia o climax de não ser nada e querer imediatamente ser tudo, que o amor fosse um circulo, a morte um quadrado, a dor, a dor...

Bolas nem eu que aqui parado a pairar sobre o que na minha imaginação ferve, eu que denomino-me como alguém dono de algumas palavras que empresto aos outros consigo perceber, agarrar, morder, provar e descrever a miséria de sentir a katana que subtilmente nos quebra pele de dentro para fora e mesmo que tivesse essa descrição tão límpida e desempenada na minha cabeça algo me provoca nojo no definir eternamente algo desta magnitude, iria generalizar, ser um dicionário tão kitsch e inútil que poderia desistir de cadernos, folhas, guardanapos em conjunção com a caneta, mas o que digo tornaria a sua missão mais confusa e árdua.

O mundo desaba ao seu redor, o seu mundo isto dito, tenho a certeza que algures no mundo um músico dedilha emoção no mais puro esgalhanço de guitarra, um poeta entra em espiral de auto-comiseração e esgravata o verso apelidado morte, e um actor olha esse apelido nos olhos engole em seco e saca da cartola a mais perfeita interpretação de macbeth, tenho a certeza que tu, ai entrelaçada sobre ti, cabeça sobre os joelhos, ai nesse canto poeirento, procuras não por respostas mas por gestos imagens, compões toda essa torrente de sentimentos dentro da tua cabeça, visualizas não analisas, procuras os contornos certos.

O horror que tão próximo te tocou o rosto do merdas que levou quem amavas, a alma dessa pessoa que contorno tem?

É um sorriso para mais tarde recordar? Não, não para isso tens fotos, quais são os contornos de um coração que agora inerte não te chama mais, um corpo que deixa de crescer, amar, falar, gostar, imaginar, pensar e te acompanhar, o egoísmo que te percorre o ego atormentado por tudo o que ficou por dizer, tudo o que resta está à tua frente, homenagem, tem que ficar perfeito.

Pega, vamos, pega, é um simples lápis, eu sei começa simples, traceja o horizonte, o sol, e algumas nuvens, tenho a certeza que nem tudo foi sempre céu azul entre vocês, pega este pincel, e com cada linha um detalhe dos seu corpo, o vestido que adorava, flores e tudo, cores vibrantes.

Toma limpa o rímel horrível que te escorre na cara, e desenha-te a ti, exactamente com isso, com lágrimas e pintura facial, porque não, o toque de ironia, certamente melhor preito não lhe poderias dar, envolve-te nos seus braços vagamente como se fosses tu que tivesses desaparecido, como se ela ainda cá estivesse, e por boa dose um balão de pensamento, eu sei eu sei, é um quadro é suposto ser para interpretação e não ter explicação, mas que se foda o quadro é teu, e escreve simplesmente amo-te.

Agora sim chora, chora muito, fixa a imagem na tua cabeça, pega no isqueiro e queima esse quadrado, queima mesmo.

Tu sabes, eu sei, todos nós sabemos que tal como o quadro nada dura para sempre, facto da vida, isto não é uma lição de vida, não é filosofia de bolso ou mordomia de escape, isto é o que ficou por fazer, isto é o que ficou por dizer, isto é o ultimo capitulo, isto é o teu mundo mais pequeno simplesmente sem nada por dizer, sem nada por fazer, não é o discurso do filme, nem o choro de carpideira, é a tua mensagem enviada e entregue ao vazio onde ela agora mora, gravada, profundamente no núcleo do que és, o bloco de cimento na tua estrutura, vive, vive muito, e quando voltares a sorrir lembra-te, lembra-te dessa imagem, respira fundo, e continua a sorrir.

Ser feliz não é desrespeitar, ser feliz é amar essa memória, é beijar na cara a história e ter o prazer de recordar.

Agora chora até não poderes mais, porque quem não chora são os anormais....

sexta-feira, 14 de março de 2014

Impar

ohhhh pensamento tacanho
que agarrado ao engenho
e ao mesmo nó que vos fez sangrar
aquele caminho que todos se apreçam a estipular
sem entenderem que sou ímpar
não entendem o que me faz voar
e se eu definho em meus próprios termos
agarrado à vontade que todos temos
e à simplicidade de navegar
de ir ao mar e deixar-me levar
sou a pétala branca na rosa negra
o ponto de luz que quebra a regra
que todos comentam em surdina
e grita a mensagem voz de ardina
que só a vossa verdade é sepulcral
e o que sinto? o que sinto é irreal?
façam manchetes de opinião
gritem em plena multidão

que sou eu que tenho que mudar
só eu tenho que mudar

descansem a voz porque não vos ouço
estão atirar pedras para o fundo do poço
que eu com o orgulho de um pequeno moço
já construí o meu próprio troço

da estrada que me vai levar 

essa vertigem de que me aproprio
de quem no calor adora o frio
de quem ama com medo de amar
canta com vontade de chorar
luta sem ter o que lutar
e se me perco na vontade de criar?
eu não sou definição quadrada
sou uma espada cruzada
com a rosa cravejada de espinhos grossos para cortar
com um telemóvel ao centro
para me ligar ao conhecimento
que para mim é tão importante como respirar
eu sou o que se opõe a mim
que me berra aos ouvidos nas noites sem fim
com insónias por terminar

julguem o que quiserem, julguem-me paneleiro
Cinderela, palhaço, opressivo que sobe ao poleiro
e grita do cimo de pau feito
que este mundo imperfeito
é uma merda que vocês me deram
e que recusam se responsabilizar
que eu no amâgo sou cobarde do próprio medo de mudar

e eu que nem me defino como poeta
mas como o dedo do meio que no ar se espeta
decidi poetizar

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Torre

Hoje sonhei. É raro os sonhos me voltarem à memória mas a marca que este me deixou queimada no córtex, fez-me lembrar.

Ao início senti que voava, o corpo leve, o vento batia-me na cara e o frio era intenso, mas ao olhar em meu redor apercebi-me que a realidade era macabra, estava parado sobre um precipício, que ao mesmo tempo era ilha, uma torre rochosa elevada uns cem metros sobre o mar. No topo eu sobre um bocadinho de relva pouco mais de um metro de diâmetro, 360 graus à minha volta só enxergava azul. O oceano circundante enraivecido investia sobra a base que me suspendia, a cada onda tudo vacilava, eu, a erva e as rochas. Ao fundo o sol, esmurecia no horizonte, e eu contava os últimos minutos do seu calor, sabia que a noite traria mais incerteza à minha posição. Sentei-me na borda e vislumbrei o apagar da estrela mãe senti que seria a última vez. Durante o crepúsculo as nuvens aproximam-se e com elas a chuva cai. Revolta a maré atacava vigorosamente e eu lá no alto sentia a água prosafanão atingir-me. Terremoto, agarrei-me, mesmo sabendo que de nada valia, eis quando tudo desaba eu, a erva e as rochas, tomba-mos sobre a espuma, na corrente viajei até o ar me faltar, sem acordar. Sobre mim a fúria neptuniana, arrastava-me contra as pedras que outrora me suspenderam, vezes sem fim.
Ai eu despertei, sem desespero, sem sobressalto, limitei a abrir os olhos e no tecto sombras da manhã. Não procurei por ar, não entrei em pânico, aceitei a derrota e abracei a calma.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Lágrima



Eu sei que ai estás. No fundo eu consigo-te sentir, no fundo consigo te tocar, eu sei , eu sei, que isto não é verdade, e a alma doí, sinto que uma agulha rebentou a sua camada exterior e agora palavra a palavra o conteúdo esvaísse no papel, sinto que a morte de tudo aquilo que escrevo é premeditada e oposta-mente impaciente, é como se o meu coração, acelerado, bate-se de encontro a uma pequena agulha alojada nas paredes do meu externo, a cada batimento uma dor invade o sangue, essa dor é bombeada pelo meu corpo e envolve-me num manto escuro, comovido a lágrima ameaça romper, e eu deixo, eu quero que vá que me inunde, que me traga ao lugar seguro que é amuar.


No fim quando primo o ultimo carácter é como se um enorme rompimento me tivesse atravessado, e uma dor mantém-se no corpo, é ínfimo, e invisível e eu não sei o que fazer ando ás voltas a contornar fantasmas respiração ofegante, é como se quisesse chorar, é como se quisesse correr, é como se quisesse voar, é como se quisesse dormir, encolher, esconder, murmurar. A dor é tão grande, que provavelmente começaria a correr, desleixadamente, caísse, me enrolasse, me escondesse, levantasse e saltasse, parasse, e ficasse a olhar o céu cinzento, breu, a chova molhar-me-ia a cara e eu ficaria exausto, cansado, e o que sentisse não fosse nada para além da ferida que o meu músculo mais importante contrairia no palpitante, a dormência penetrava o cada membro encoberto de fraqueza.


Talvez um beijo ou um abraço talvez isso fosse a cura perfeita, a voz de mansinho a recitar poesia, Neruda, talvez ele provoca-se quadras de razão no soneto que percorreria a minha própria ilusão, encapuçado artista, enrolado no papel da vida sem alma absorto o seu verso seria alegre, porque aos meus ouvidos tudo soaria como choro, tudo seria absurdo e redondo, eu reflectiria algo mais do que eu próprio ao olhar o espelho.


E a lágrima devora-me mais do que chuva a lágrima despeja sobre mim mais do que um cientista sobre o microscópio conseguiria ver, a lágrima leva na sua composição tanta coisa, leva tudo o que nos faz melhores, HUMANOS, chorar quando aquela personagem no filme morre, chorar pelo nosso animal de estimação, amigo, familiar, ídolo, tudo isso é normal, e um homem que não chora não sente, é simples, a lágrima é a expressão máxima do ser, a prova que temos mais do que coração, corpo e mente, que temos algo que não se vê no raio-x, não é uma parte do cérebro, não é química, não é física, não é biologia, é a alma.

Poema XX, Pablo Neruda

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche. 
Escribir, por ejemplo: " La noche está estrellada,  
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos". 

El viento de la noche gira en el cielo y canta. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Yo la quise, y a veces ella también me quiso. 

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.  
La besé tantas veces bajo el cielo infinito. 

Ella me quiso, a veces yo también la quería.  
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido. 

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.  
Y el verso cae al alma como pasto el rocío. 

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.  
La noche está estrellada y ella no está conmigo. 

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.  
Mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Como para acercarla mi mirada la busca.  
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo. 

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.  
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.  
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. 

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.  
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.  
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido. 

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,  
mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,  
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo. 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Raiva

Através da minha íris, fiquei propenso ao sabor das ondas do mar, suspenso na sua fúria dilacerante, no caso de amar e desprezar, talvez o caso seja que perante mim e a encobrir os meus olhos um manto negro, cego, cor que parte a lógica e guia aquilo que digo e penso, é irracional e palpitante, frustrado, incoerente, ofuscado pelo nada.
A Raiva!
A voz miudinha do mata e esfola, concentrada num único objectivo, numa única personagem, mais grave, muito mais grave, num ser como eu.
Eis quando a minha consciência folheia pelas páginas que o meu pensamento vai escrevendo com letra esquizofrénica , e se apercebe, que todo o meu poder destrutivo é direccionado a uma pessoa, a minha mão congela, cai sobre o meu colo, braço dormente quando a voz grita desesperada "ATACA", berra aos meus ouvidos cada vez mais forte, cresce, este sentimento para si é terra, água e luz, prospera até se tornar incessante, mas eu caído não encontro forças para mais,
Sobre a mesa, sobre o caderno, sobre tudo, sangue, sangue derramado, pergunto este sangue? Este sangue é meu?
A voz indignada responde "Sim", acalma-se, mas continua "cobarde, é sempre assim, sempre, mais uma vez escolhes fugir, mais uma vez escolhes me esconder dentro de ti".
O sangue escorre pela palma da mão e eu incrédulo observo a torrente, como fiz isto? Sem sentir dor? Sem pensar? Sem querer? Um milhão de questões sem resposta correm pelas minhas sinapses na esperança que a dança entre os hemisférios haja réplica ao que acabou de acontecer.
Não é tempo para niilismos tenho que continuar, tento pegar a caneta com a mão esquerda, levanto-a, a minha bandeira e logo sobre mim comportas abertas as palavras que escondi no cofre, dentro do cofre, dentro de outro cofre, numa caixa de madeira pinho pobre, as conjugações pérfidas, de ignóbil valor, vis, ressabiadas, aquelas que considero malditas e maldizentes, agora que se formam na tinta da caneta sobre o papel manchado.
O golpe é profundo da outra palma jorra a seiva que considero vida, levanto ambas e olho-as sobre a minha cabeça em frente à luz artificial, a lâmpada é o meu deus ateu, aquela que apaga a escuridão na noite sem fim, inquiro existencialismo sobre a mesma, porquê? Eu não sou mártir! Mas a raiva é minha, por isso eu julgo-me e com uma celeridade devastadora condeno-me, o turbilhão de sentimentos é chama na fornalha que derrete a essência que há em mim, a minha alma, que começa a ficar irrequieta bem no centro do meu peito, a voz entra em reboliço e em plenos pulmões protesta "NÃO, NÃO, EU SEI O QUE ESTÁS A PENSAR, A CULPA NÃO É NOSSA", agarro com toda a força a espada, os meus membros encarnados não deixam vislumbrar nem um prenuncio de pele, afiada, aponto o meu âmago, o ardor a aprofundar os lanhos nas minhas mãos, sinto cada centímetro, o cortar da pele, o talhar do músculo, o quebrar do osso, o penetrar da alma, o fluxo sanguíneo jorra sobre mim, quente, impaciente, deixa-me e leva a vida, a voz cala-se, e eu encosto-me na cadeira, a esferográfica é ilha em rio vermelho, a cabeça revolve sobre o pescoço e cai para trás, acabo a fixar o tecto, e respondo "A raiva é minha, só minha" vejo de novo, mesmo a tempo de ver o candeeiro acender a escuridão.

sábado, 11 de janeiro de 2014

Falível

E quando mordemos o pó doentio da vergonha? E sem saber embaraçado recolho-me na pequena bola da minha maior falha.
Não tenho orgulho nisto que faço por aqui, o blog tem 3 anos, o livro da voz 5, o toma café comigo 6, o memórias está parado à quase 3 intocado, e se alguma vez me promovi foi pelo texto aqui, Re(conhecer), mas pela simples razão de que é mais dos outros que meu, a minha música é uma mancha que apenas trago a baila por gabarolice idiota. Medo talvez, medo de alguém não gostar, medo de ser mediano e não fantástico, medo de o que gosto realmente ser irrelevante e de mais uma vez ser destruído por comentários de gente torta que me destruam a vontade e sabor por fazer isto, mesmo sabendo que qualquer critica que possam tecer, não construtiva, eu consigo dissecar e agarrar pela espinha vil e pérfida de uma forma corrusiva e insultuosa, mas no fim depois de a raiva passar e a poeira assentar aquele que vive dentro de mim cairá na ratoeira de ouvir os meus pensamentos mais inseguros, ele será a esponja de todas as dores e vulnerável outra vez seguirá o caminho cabisbaixo dos seres sencientes revogados à réstia de orgulho primordial dos prazeres simples. E aqui arrisco cair numa contradição mas reconhecimento é ao mesmo tempo algo com que lido não lido bem, não sei me comportar quando me elogiam ou assumo a postura de um snob enfactuado com o seu próprio ego ou de alguém que está sobre ataque cerrado em que cada ponta de enaltecimento é seta no alvo e contorcendo a face em mil e uma caretas de angústia.
Em suma parei na bifurcação mais horrenda medo do falhanço e medo do sucesso, em que a única coisa que teria a meu favor era o facto de puder partilhar com mais de vós aquilo que adoro e possivelmente inspirar uma criatura mais preparada que eu para o criar grandeza, e que eu maravilhado feito fã e mau mentor possa sacudir de mim mérito enquanto me delicio con a vossa obra.
Como sou falível.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sejamos

Fazemos assim, deixa-mos de lado tudo o que não nos impressiona, pousa-mos o pesado fardo que carrega-mos para trás e para a frente, no culminar de toda a desilusão e desce-mos desse poiso doirado, não vamos meter mais santos em altares.
E porque não subirmos Andes, os Pirenéus, os Himalaias, a Estrela e o Pico, partir numa aventura tão épica que o coração palpite feito cavalo de corrida, solto na lezíria.
Façamos da dunas camas, e das camas dunas, explore-mos o mundo sem sermos turistas como se pertencêssemos a todos os locais e o ame-mos como o nosso lar, como se o nosso espaço desaparecesse e se torna-se o espaço de todos tão cheio de tudo.
Que a nossa gastronomia se transforma-se, e o pequeno almoço fosse um "bounjour" em forma de croissant quente, ao almoço polvilhássemos a "saudade" na sardinha assada, com um copo cheio do mais "legal" café para o fim da refeição, e o lavássemos com o "amaro" amaretto para que envoltos em nostalgia pudéssemos apreciar o "Sonnenuntergang" com um chocolate quente a aquecer os dedos, para o jantar ouvirmos "Konbanwa" ao sabor do sake e Soba, e nos deitássemos com o fundo cinzento e melancólico da chuva e um "hello" entornado sobre um copo cheio de guinness ao som do " Where The Streets Have No Name" e ficássemos por ali donos do mundo, do planeta, deste espaço aparentemente infinito mas cada vez mais pequeno.

Que por um dia nas nossas palmas a linha longa seja o equador e talvez estejamos acompanhados por uma guitarra de fado a aturdir as mágoas, talvez seja ai que o meu corpo queira estar e parar, comer o ar e respirar os sabores.

Por muito português que o BI diga que sou, por muito que me diga que este jardim à beira mar plantado é o local mais bonito do mundo, algo me pede mais.

"Eu(Tu)"

De quando em vez
aquilo que és
é fresco e difuso
raro e confuso

de vez em quando
o caminho onde ando
é travo amargo
de sonho largo

daquilo que não mudo
sejamos aquilo que queremos
aquilo que vivemos e desejamos
para nós e para o mundo

ninguém pode ser rei
de definições e de lei
daquilo que sentimos
e no âmago ouvimos

somos nós
e mesmo a sós
miramos o céu
e gritamos és meu

eu quero ser
eu sou sem o saber
a terra que piso
que sem aviso

me viu nascer
me viu sofrer

me viu saborear
todos os passos
beijos, amassos
que me fez sobrevoar

asas nos pés
aquilo que és
só te cabe a ti
definir, atribuir, sentir e dizer que sim.