domingo, 26 de fevereiro de 2012

Criaturas

É tarde muito tarde, é evidente pela noite que me devora nas sombras aqui deitado, sinto as pálpebras com um peso enorme, uma névoa espessa ofusca-me os sentidos, o corpo pede pelo mundo dominado de sonhos naquelas portas que se abrem de mansinho quando os globos na sua órbita reviram e olham para o interior sombrio das nossas mentes, salvaguarda à navegação nesse espaço invocado pelo profundo descanso, nem tudo o que trás é bom, eu sei que por mais que tentes acreditar dúvidas da minhas palavras, eu sei que tu sabes, porque eu te disse, que dos sonhos, a maior parte não me lembro, mas que os que me lembro gravam-se sob a retina e são visíveis em pleno esforço laboral diurno, o velho no parque, a ponte sobre o rio, o fim que no fundo desejava para aquela noite, os sonhos e por fim os pesadelos são a nossa derradeira chance de enfrentar-mos outro mundo antes de voltar-mos a rotina que nos massacra na realidade, portanto lançamos-nos sobre eles cheios de fé, cheios de esperança que nos tragam prazeres mil o escape dos pobres de amor, dos que notam ausências dolorosas do outro lado da cabeceira e dos que nunca o experienciaram mas que activamente o desejam.

Os sonhos são sacanas, às vezes carregam-nos para outros lugares nojentos que nos lembram de todos os horríveis erros que comete-mos, o subconsciente é um filho da puta encapuçado que finge que na realidade está lá para nos ajudar mas espicaça-nos ao limite do desespero ao abismo complexo das nossas próprias capacidades cognitivas, somos escravos dele, dele do desejo , do prazer e das manipulações externas, contra esses elementos estamos completamente desprotegidos e arranja-mos mil e uma formas de racionalizar esses vícios que transporta-mos do berço à laje . Contudo e sem perder o fio à meada lá me deixo eu cair desamparado à mercê desse judas que vive dentro de mim em maquinações para se apropriar do meu corpo e consciência, aterro algures que por momentos até pensei ser o paraíso, o chão suave com erva fresca com água a correr, mas depois rapidamente veio à ideia que se aquilo era o paraíso esse deus perverso, sim escrevi deus sem capitular o d, processem-me, esse deus sádico não teve a puta da decência de me dar um par de óculos ou curar-me desta miopia irritante que me faz viver um mundo de disformidade s e cores esborratadas. Sádico do caralho, não tenho nada de bom para dizer sobre ti, foda-se, mas mesmo assim estando eu em algo que considero até agora a terra prometida, julgo eu que do sitio onde somos deixados até às portas onde se encontra o outro senhor, ainda temos uma caminhada para executar ao que dou os primeiros passos desconfiados e sigo o meu caminho, ao quinto ou sexto passo, cai, sim cai não me olhes dessa forma, cai dentro de um rio, esse teu deus palhaço, um rio gelado onde após o "splash" e o frio quase me chocar e quebrar a espinha começo a debater-me na procura insana de pé e um pulmão cheio de oxigénio, quando acho uma plataforma para que consiga ter parte do corpo fora de água e respirar, olho em frente e de repente vejo uma dessas formas que a minha doença ocular não me permite definir de todo, portanto esse algo sem linhas, ao que me parece ser na realidade uma criatura que chora e murmura, apercebo-me que de facto o riacho que quase me afogou é criado por ela, uma torrente de lágrimas jorra de algo pequeno azul, aquele azul gelo glaciar, por isso as temperaturas sub-zero naquela área, Porque choras tu? Inquiri eu. Porque sou o desgosto, choro porque sinto dor, choro porque apenas choro, em tempos soube a razão de tal mágoa, mas hoje desconheço a razão que me levou a chorar, choro porque sinto um frio enorme que gelou a minha alma. Então porque não paras? Não consigo, ainda doí tanto. Mas o que doí? TUDO. Tal e qual uma criança que petulantemente se dedica apenas a chorar por qualquer razão , esta criatura perdeu-se nisso mesmo no choro, algo um dia lhe gelou o e deixou uma cratera profunda no peito mas nem isso se recorda o choro tomou conta do desgosto, e transformou-se em gelo e rio, até estalactites de gelo apontam na direcção gravitacional. Mas ouve-me, Desgosto, tens que parar. NÃO CONSIGO, CALA-TE. E nisto um novo surto de choro desperta, e o rio aumenta abruptamente, perco o pé e desço com a corrente que se tornára mais forte. Rebolo no fundo desse riacho, até cair de novo, numa cascata, aterro na água, agora parada quase estagnada, chego à margem e subo as rochas vagarasamente, pesarosamente, sinto uma fonte de calor, da qual me aproximo desesperadamente, poderia secar-me e aquecer o corpo quase a entrar a em hipotermia, a cada passo, arrastado o antipático calor que sentia tornava-se cada vez mais ardente, mais pretensioso, ao que decido parar, estava quente o suficiente e a roupa começava lentamente a secar sobre a minha pele. Eu pensava que estavas com frio, no entanto páras e manténs a distância, aproxima-te eu não mordo, com muita força, ahahah. A fonte de calor é na realidade outra destas criaturas, vermelha, como se o sangue lhe corresse nas veias em ponto de ebolição, aproxima-se e eu como se fosse um termometro de mercurio sinto a diferença e dou um passo atrás. Afastas-te? Maricas. E nisto ergue-se e berra, altissimo, esta criatura emana um fogo de tamanha dimensão que o lago atrás de mim começa a evaporar-se rapidamente. E tu que berras quem és? Eu, ahahah, não sabes, cheiro o teu medo, mas sei que me conheces bem, e que a mim já cedes-te algumas vezes, sou o mais quente de todos os sentimentos, o mais poderoso, sou adrenalina, hormonal, SOU A RAIVA. Algo em mim tenta-me empurrar até ele, algo em mim que conhece esta Raiva, não a mesma parte que sentiu pena pelo Desgosto, não era certamente a mesma parte, o Desgoto ainda aparentava ser um humano, esta criatura protentuava-se como algo definitivamente diferente, uma espécie de dragão vermelho com pele feita de lava, fumegante, abrasivo, o espaço a sua volta tornare-se cinza, tudo o que fosse vegetação tinha ardido, a única coisa que impedia esse fogo de alastrar era o lago criádo pelo Desgoto. E porque sentes tu Raiva? Não se sente logo, ahaha, estás a mangar comigo, PAREÇO-TE TER CARA DE ALGUÉM QUE GOSTA DE BRINCAR? Eu penso para mim foda-se, estas criaturas e os seus dilemas e frases cheias de pequenos puzzles e enigmas endicifráveis. Deixa-me adivinhar também não sabes, desde que de certa forma entras-te em erupção? Eu sei, eu sei, mas aqui todos temos razões diferentes, e na realidade pensa bem onde estás, e se o seguimento de CRIATURAS, como nos chamas, não te parece familiar? E nisto a tatuagem que tenho no braço começa a queimar, incandescente, uma dor horrivel apropria-se do meu corpo. Estou a arder, é culpa tua? PENSA ESTUPIDO, QUEM SOU EU? A medo subo a manga da camisóla, e vejo o nome escrito a virar magma. Começa a fazer sentido ESTUPIDO? Meto o braço dentro do lago para que o fogo em mim acalme, para que eu em forma de vulcão não entre também em erupção. Sim faz sentido, eu estou na realidade dentro de mim, eu enfrento o desgosto indo buscar forças a alguém cheio de raiva dentro de mim. Exacto, devias o deixar sair, para brincar-mos, eheheh, ele é bem mais forte que tu, sua triste figura de humano, QUANTAS VEZES JÁ NÃO TE APODERAS-TE DE MIM COMO SE FOSSE TEU ESCRAVO EU NÃO SOU ESCRAVO DE NINGUÉM! Nisto a água sobre o meu braço começa a borbulhar de forma insana, a tatuagem começava a ferver a água tinha que me afastar, tinha que correr, mergulho nado até à outra margem e começo a correr. FOGE, ÉS SEMPRE O MESMO. O braço começava a sanar, mas o que ele disse faz sentido, na corrida a floresta intensifica-se, e sinto uma ao meu lado a correr à mesma velocidade que eu, como uma sombra que não era minha, paro, esta criatura continua a correr, mas volta a passar por mim, mais uma e outra vez, eu parado observava-a, corria em circulos quase me orbitava. Estás perdido? Pergunto eu. Não sei. Responde ofegante, esta criatura cinza, desculorida, parece procurar algum caminho definido mas nunca encontrar, volto a correr em frente, ela acompanha-me de novo, mas volto a parar e a olhar à minha volta, também eu parecia ter descrito um circulo à volta do vazio, penso para mim gritar um foda-se bem áudivel, mas aquela criatura antecipasse. FODA-SE. Eu ia dizer isso mesmo. Ias? Sim, porque andas às voltas tu? Estou perdido. E nisto esta criatura aproxima-se devagar, começo a distinguir-lhe os detalhes, é uma criatura bípede mas mesmo próxima continua com os tons de cinzento de uma sombra, a única cor que destoa em todo o seu corpo são os olhos, brancos, brilhantes, cegos, aproximo-me e passo-lhe a mão à frente dos olhos para perceber se consegue ver o movimento, e nem uma reacção. És cego. Bem... Ele sorriu e o que deu pare entender que no lugar da boca sustem apenas um vazio. Cego não sou, apenas não vejo, tu também de certa forma o és, aproximas-te para vislumbrar e definires-me, eu sinto o teu bafo quente a rondar-me como um beija flor sobrevoa a flor mais sumarenta. Ahah sim tenho miopia. Toma deram-me isto à muitas noites mas em nada me ajudam. E deu-me um par de óculos. AHHHHHHHH. Grito, seu deus filho da puta existem seres melhores que tu. Ele ri-se de novo. Que procuras tu? Aliás como te chamas tu? Eu não sei o que procuro à muitos amanheceres que acordo sabendo onde estou e perco-me ao anoitecer, quando a brisa se torna fria, não sei o que procuro, chamam-me por muitos nomes, Sombra, Caminhante, Sem Norte mas o meu nome é Frustração. Pois conheço-te bem demais. Bem à gentes aqui com destinos piores, apelidos piores e forças mais maléficas, tu, sinto que também tens um pouco de todos esses por quem passei, inclusive um pouco de mim, és humano. Sim. Muitos de vós passaram por aqui, alguns tranformam-se simplesmente em Desgosto por não encontrarem a saída e não voltarem para suas amadas, outros em Raiva por sentirem que a ilha é injusta, outros ainda correm dias e noites e morrem em sombras de Frustração. Tal como tu? Não sei, só me lembro deste galopante sentimento que se apoderou de mim, e assim fiquei solstícios sem fim. Sabes se à saída daqui? Certamente que há, os ventos não são daqui, tento segui-los, mas mudam, e outras criaturas tentam amansar a essa brisa. Hummm. Talvez deva ir então? Sim, eu também vou, naquela direcção o vento vem dali. E começa a correr até o perder na folhagem da floresta, sei bem este sentimento, tenho que me controlar para não ter mesmo fim que todos os membros anteriores da minha espécie que por aqui passaram, respiro fundo e a passo largo sigo através do ar fresco que me é soprado do interior do mato mais denso, agora consigo ver tudo o que me rodeia, pequenos trepadores que se elevam nas árvores, acelero um pouco o passo, quando de repente. Vê por onde andas. Desculpa não te vi por entre as folhas, quem és? Um corpo feminino, humana. O meu nome a ti não te importa, de qualquer maneira qual é o teu humano? Mesmo sem reciprocidade, voluntario-te o meu nome, Diogo, estás perdida também aqui? Não sejas idiota eu sou a rainha destas terras. Claro, retiro o que  disse portanto. Fazes bem. És humana? E nisto um desses trepadores que antes vira, sobe-lhe para o ombro e ali fica a observar-me. Boa pergunta, serei? Aparentas ser. A criatura no seu ombro grita, e mais como ela  rapidamente aparecem por entre as folhas das árvore, pequenas, acastanhadas de olhos brilhantes, emanam um brilho metálico que adorna tudo à sua volta, tipo cobre, os olhos do ser que sobre o seu ombro me observavam brilhavam mais que de todos os outros, tento me aproximar desse e um pequeno raio que mais parecia derivado de uma bobine de Tesla ataca-me nos óculos provocando uma pequena faisca, dou um passo desamparado atrás e afasto-me, ela ri-se. Não consegues lidar com um pouco de electricidade? O teu corpo certamente esconde a polaridade negativa que tens. Nisto começa a despir-se, e uma fenomenal mulher vislumbra perante mim, dou outro passo em frente e desta feita dois choques que não me provocam recuo, resisto à dor pensando que o beneficio de a possuir seria bem maior. Vem! Diz ela com voz doce, mais um passo e desta vez o choque foi muito maior bem no meio do peito, sinto o meu ritmo cardíaco acelerar demasiado rápido. Estás com medo, Diogo? Não mas diz-me o teu nome. Aproxima-te e digo-te ao ouvido. Respiro fundo e sinto um déja vu, o meu coração a mil à hora do choque e da excitação que neste momento inunda o meu sangue der hormonas, no entanto a torrente sanguinia transporta agora mais oxigénio ao meu cérebro, esse sentimento que reconheço, arde dentro de mim, mas o meu pénis troba dentro das minhas calças e propela-me a mais um passo, um enorme trovão atinge-me de novo no peito, arde, arde tanto, o meu corpo desfalece e caiu de costas no chão. Hihihih, Diogo, Diogo, Diogo. Ela ri-se em surdina e abana a cabeça devagar, levanto-me, sinto a electricidade navegar nos meus ossos completamente fragilizados, na minha cabeça vozes gritam o meu nome. EU SEI QUEM TU ÉS. Ai sim? Sim, sim, tu é as Lembrança, a Lembrança de Amor antigo, não dou mais um PAssoooo.... Um relâmpago vindo de todos os outros seres que se encontravam nas árvores cai sobre mim com uma força indomável.

Acordo uma luz ofusca-me os olhos, ouço muito ao longe o meu nome e um corpo cai sobre mim, o meu peito enche-se de ardor e grito, e tusso, e grito mais um pouco, o corpo rapidamente sai sobre mim ao ver a minha angustia e dor, um berro de outra sala vocifera que ainda estou em recuperação, olho à minha volta, não vejo aquela mulher, só humanos, acho eu, mais uma vez faltam-me os óculos, esse corpo, essa pessoa que caira sobre mim chora de felicidade e rapidamente aproxima um par de óculos ao alcance das minhas mãos, meto-os, e começo a reconhecer rostos familiares, sento-me devagar, a rapariga que antes me tinha provocado imensa dor agora aproxima-se devagar, abraça-me. Es...tás Bbbb...em? Por entre um gaguejar de soluços diz ela com voz preocupada. Tive o sonho mais estranho. Entra um médico que se ri ligeiramente. Não me digas que viste a luz? Não. Pois, estás cheio de sorte, quase morreste num acidente de mota na A2, tivemos que te trazer de volta, gastas-te bastante electricidade ao hospital, vai-te sair caro, portanto da próxima vez que andares atrás de memórias pensa bem antes de arrancares com uma mota, já agora é uma bela Ducati, digo antes era, e deixas a namorada aqui horas a fio feita carpideira no hospital a preocupar-se contigo, não entendo porque é que um jovem como tu renega tudo o que de bom tem para seguir sombras e fantasmas do passado. Exacto, às vezes deixamo-nos consumir e possuir por esses sentimentos sem olhar para o que de bom temos. Sim, bem de qualquer das maneiras pareces bem podes sair mais logo à tarde, já não nos devemos ver mais, mas daqui a um mês voltas para te tirarem o gesso, até uma próxima, bem vindo de volta, essa ilha que é a morte é difícil de escapar. Deito-me e por um momento descanso.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Cafés Feios: Esplanada



Olá. Olá. Portanto mais uma vez tu, sim tu, porque só tu me fazes sair da minha zona para andar 10km nas ruelas meio perdida e vir ter a uma esplanada no meio da rua, no meio da passadeira, numa esplanada ligada a uma tasca? Isso significa que sou importante. Julgas-te. Então explica-te, o que te fez fazer esses quilómetros. Há razões que a razão desconhece. Dirias que na realidade sou a tua unica ligação ao mundo a sério que no alto da tua torre de escritórios e nas pastelarias gourmet que frequentas com as tuas amigas, tanto ignoras? Não eu vivo no mundo a sério, ao contrário de ti que procuras nas páginas o mapa de coisas que a ninguém, de hoje, importa, e pensas que aqui no meio das gentes mais simples que vais encontrá-lo? Estas pessoas não se esqueceram dessas coisas.


E nisto disponho 1.20 euro, para pagar dois cafés.


Para além disso o café aqui é mais barato. E pior, mal tirado e basicamente uma das três coisas que aqui vendem, café, vinho e cerveja. Que mais precisas tu num café? Um cappucinno, um bolo, nem que seja um reles pastel de nata. Já viste a complexidade dessas coisas? Como assim o que tem de complexo um bolo e um cappucinno? Quando entro num sitio com essas coisas todas perco-me, como me perco na multidão dos centros comerciais. Sim eu sei por isso é que só sabes o caminho para duas ou três lojas de roupa e para as livrarias. Exacto, que mais de interesse pode albergar um centro comercial? Restaurantes, boas lojas de roupa, cinemas. Restaurantes também há aqui sem precisares de ir buscar as coisas num tabuleiro, nem esperar em filas, nem com todas as restrições ao meu tabaco, aqui sento-me, como, bebo, rio, falo e fumo o meu cigarro, para que servem então os restaurantes nos centros comerciais? Vai lá mais gente do que aqui. Claro as pessoas tal como tu esqueceram onde isto é! Porque isto é feio. De certa forma tens razão, de certa forma, mas a beleza está nos olhos de quem vê, e na realidade as pessoas deixaram de ver, deixaram de apreciar a simplicidade. Nos olhos do mundo isto é feio. Incomoda-te a simplicidade? Claro, o mundo só tem forma de avançar e não de regredir no tempo como tanto aprecias. O problema é que o sentido de simplicidade é mais complexo do que o princípio simples e robótico da modernidade, a alma é coisa sem vectores tangíveis. A alma, a paixão, isso é coisa dum mundo passado. Tens razão hoje em dia as pessoas procuram ser eficazes em tudo o que fazem e não ter paixão ou amor. Claro. É isso que procuras eficazmente em mim, sugar-me a paixão, a alma e o amor, coisas que sentes falta e não entendes bem porquê. Eu não procuro isso em ti, quanto muito o sexo, esta relação disfuncional, não emerge em pensamento de amor. Enganas-te eu não te amo, mas ao mesmo tempo, talvez o faça sem saber, tal como tu, quando antevês no espaços que deixo em aberto mais um beijo ou uma caricia. Esse vazio, é vazio da tua cama, da tua almofada, é sitio que não procuro mas que encontro, serás tu que és muito fácil em tal aglutinação. Não eu escrevo amando, amando profundamente as personagens que nem o seu nome sabem até eu lhe o atribuir. E tu sabes o teu nome? Não confundo o meu com o teu, e os deles, e os dos filhos que não temos porque deixas-te essa fome maternal enterrada nas areias movediças desse mundo que tanto idolatras. Eu tenho fome maternal, tu é que não és material paternal. Tens razão ensinaria o amor e a paixão, e todas essas coisas sem formulas matemáticas aos teus filhos, coisas que tu não queres que eles aprendam, para que depois não te arrastem para este mesmo sitio, ainda mais envelhecido mais feio. Exacto, quero que eles me arrastem para a broadway não pelas ruelas sinuosas desta capital de império de areia e pedra. A nossa capital, a cidade que nos viu nascer, e que por muito que te custe beijas com saudade no céu a cada viagem transatlântica para essa eléctrica Nova Iorque, e que abraças com vontade cada vez que olhas as praias da Costa da Caparica na aproximação à Portela. Que sabes tu disso, tu que nada sabes sobre mim e que apenas pensas que sabes. Leio-te nas buscas por estes cafés feios enquanto te espero, no desespero das tuas mensagens rápidas quando te deparas com a possibilidade de não achares a cadeira onde o sol te banha agora. Tu lês-me, ou pelo menos achas, porque o meu corpo para ti deve estar noutra língua, das poucas que não entendes. Não está o teu corpo simplesmente se enche de paixão e vibra sem padrão definido, o teu corpo deixa de ser teu e o meu deixa de ser meu, passa a ser nosso, e essa língua, só é decifrável aqui, nesta esplanada no brando calor que provém da chávena, em que tu dúvidas de cada palavra minha, e sem irrefutáveis argumentos me consegues explicar o que aqui fazes.


O olhar de quem nega aparentemente o que digo e o silêncio de quem nada tem mais para dizer.


Vamos embora? Deves precisar de boleia para casa tu, quando cresces e tiras a carta? Quando deixarem de haver cafés que desaprovas e achas feios.