terça-feira, 9 de outubro de 2012

E porque não


Não posso esperar por te dizer isto.

A voz doce é redundante.
Mas ele insiste.
Ao que o vais dizer pura e simplesmente ao telefone?

Onde queres que te diga?

Ao ouvido, devagarinho, de mansinho, de forma especial.

Morde a língua respira fundo e espera, aguarda.

A beber um café de manhã apercebi-me o quanto me fazes falta.

Talvez tenha sido por não teres ainda acordado, porque eu estava lá, onde sempre estou, sobre a tua cama.

Eu sei, eu sei.

Baixa a cabeça e imagina-a na sua cama, nua.

Metes-te ao menos açúcar no café?

Não foi preciso, o teu sabor, dos teus lábios adocicou-me tudo o que meti à boca o dia todo.

Eheheh.

Morde o lábio e sorri como se nada fosse.
A rua faz-se escura o sol, já se despedaçou no oceano.
Mas dentro dele arde aquela chama.
Porra Camões o autor não te queria evocar ao caso.

E achas que o que tens para me dizer eu já não sei?

Sabes? Sabes mesmo?

Por trás dele a porta fecha-se, ficou quase 1 hora a olhar para a vitrina antes de entrar.

Não sei?

Não me digas que é algo diferente do que me disseste ontem à noite, parafraseando "Ai amor, Ai amor, Ai meu Deus" mas eu corrigi-te logo "Ai minha Deusa, se faz favor, isso de tares a pensar noutro gajo nesta altura não te fica nada bem"

Ele ri-se, ri-se muito, a este pequeno desnorte, "flirt" chamam-lhe os anglo-saxónicos.

Não sei se sabes.

Então espera para me veres, sabes onde me encontrar.

Entra no carro a pensar no que comprara.
Não lhe sai da cabeça o teatro de ensaiar o que dizer.
O que fazer, violinista não tem, guitarrista, ele toca umas baladas, vai ter que servir.
Chega a casa agarra na guitarra e dirige-se ao andar abaixo.
Bate à porta do 7ºA.
É isto que lhe sai.

Oh
Também te quero
E tanto eu espero
por te ver sorrir
sem sono
perco-me num trono
és rainha e princesa mesmo a dormir

E tanto para lá do que sinto
Não à palavras
De amor
Para descrever

E tanto para lá do que vejo
teu olhar e teu corpo
O teu ser como és

Tantas canções que eu podia cantar
não me chegam pra te contar
que te amo
que ainda me encantas
e me fazes respirar.

Eu sei que tanto esperas
por novas primaveras
mudanças promissoras
um tanto arrasadoras
talvez te devas sentar

Oh minha deusa
Lembras-te do que te disse
Que o meu coração
é difícil de domar

Mas eu estou aqui
Pra te pedir.......

Pra casar!

De joelho no chão, como deve ser.
O anel mais bonito que havia na ourivesaria.
Tinha certeza disso, passar uma hora a analisá-los um a um.

Sim....... Claro que sim.....
5 Anos, 5 ANOS, IDIOTA, que outra resposta te poderia dar?

Não sei, imaginei tudo.
O bom o mau e o assim assim....

Ah Camões, Já agora se me permites.
É fogo que arde sem se ver.
É chama que queima e não se sente.
E talvez um ponto se digne a pura e simplesmente terminar o conto.
Não sem antes, e viveram felizes para sempre.

Ponto.

Homem

Do edifício mais alto, coberto de insónia, fixa o homem a bruma das ruas, o atabalhoado trotear das gentes, fixa não por querer ver mas sim porque tal fadiga o mata, e ele fixa, na tentativa de dormir, descansado, só mais uma vez.

Na terra em que vivemos, nesta terra, existe um homem, aliás vários homens, que há noite olham por nós, dos edifícios mais altos, dizem que eles próprios construíram, mas é mentira, pagaram a outros homens, e máquinas, e mulheres para os fazerem, estes os homens que estão lá no topo, estão apenas lá porque o sono não lhes toca, são brilhantes, tal como as estrelas, mas querem sempre mais, mais brilho, como o sol, muito mais, para que na sua retaguarda nunca se veja sombra apenas mais luz, estes homens a quem o sono não toca, têm responsabilidade, em relação a todos, mas mais que tudo em relação ao capital, é o que chamam ao dinheiro, eles pensam em formas de fazer mais, eu que olho, com olhos de sonhador, para o alto dos seus edifícios penso que é preciso apenas, papel e uma máquina muito especial para fazer mais dinheiro, tal como tinta, mas eles não eles querem fazer mais sem papel, usam máquinas, e esquemas, mas muitas vezes máquinas, com muitos números, que se enrolam noutros números e dão números maiores, hoje a insónia debate numerários astronómicos, como o sol ou as estrelas, é por isso que vivem em majestosas torres, querem estar mais perto dos astros que tentam encandear com o próprio brilhantismo.

Hoje ele olha em busca de ideias, mas morre de sono, com medo que uma jogada errada os faça cair de tal torre, feita por eles, ou paga por eles, eles podem cair, como anjos sem asas, desamparados, caídos de cadeirão tão elevado que trespassa nuvens e toca o limite do céu, a fronteira entre o que é terrestre e o que ao vácuo impiedoso do espaço pertence.

As ideias deste ser custam dinheiro, a outros, a todos, por isso ele existe, é filho sem pai, sem mãe, é órfão adoptado por impiedoso capital, razão de viver, crescer mais alto que os outros para então cair, do cimo, sim porque este homem hoje consumido pelo sono e insónia luta por lugar em tal monte Olimpo, luta contra as suas próprias dores para nunca mais voltar a pisar o chão, luta, tal como nós que navegamos sobre a terra, trabalhamos para que ele possa ter ideias, trabalhamos para que ele não tenha que descer de seu pedestal, trabalhamos por mais que comida, água ou electricidade, trabalhamos para pequenos espasmos da vida lá em cima, por vislumbres da vista de tal ser, sem medo da subida ou da queda, mas ele que já está há tanto tempo lá em cima teme, teme por relembrar a tenebrosa relação com a gravidade, e ela ninguém lhe escapa, e tu não serás excepção, ó ser.

Cais-te.

Do edifício mais alto, coberto de insónia, fixa o homem a bruma das ruas, o atabalhoado trotear das gentes, fixa não por querer ver mas sim porque tal fadiga o mata, e ele fixa, na tentativa de dormir, descansado, só mais uma vez.

Homem, eu já vi muitos como tu cair, agora abandonados pelas ruas que caminho com honra de ser humano, pedem perdão e rastejam, puxados pela gravidade, pela realidade, pela terra, pela lama, pela areia e pela pedra que cobre os labirintos citadinos.

Não temas, homem, não temas, porque eu, ser que vez de cima, e eu que te olho de volta cá debaixo, estender-te-ei a mão e levantar-te-ei, ajudando-te a sacudir o pó que te cobre, e dir-te-ei que até os anjos caem.

Transições

O velho - Uma nota, só, na pauta não é musica tal qual uma gota não é oceano.

A razão assim prontinha o diz, bem engomadinha a racionalidade é o fraque do que é social o hábito aprumado do ansião a quem o tempo não mais preocupa, a fumar o seu cachimbo no cadeirão em pose pensada e aperfeiçoada ao longo de décadas, presunção de pensar que teria sido tudo num mero acaso, realidade é que esperava por tal situação, ao que o próximo gesto foi forçado, pensado e triturado pela massa encefálica, actor amador que ele é, um pito curvado de mogno e ouro que retirado da boca e apontando para o petiz irritado pela razão que suprema reina sobre o discurso do idoso.

O jovem - A razão que fala também diz que fumar mata, apreguar sem praticar é um desprazer auditivo e moralmente condenável.
O velho - Rapaz, rapaz, vieste até mim em busca de respostas não podes me culpar a mim se na realidade não era o que esperavas, quanto a mim não queres respostas, já as tens, o que procuras exactamente é aprovação.

E recosta-se numa posição de maior conforto pois a artrite estava a pesar sobre as suas costas que em soma com a cruz de uma vida lhe causam dores espontâneas e ensurdecedoras.

O jovem - Porque me daria eu então ao trabalho de aqui vir à procura de algo que sempre tive?
O velho - Negação, uma simples palavra, essa tarefa que te forças-te a praticar é uma coação desse mesmo sentimento, esse feeling se for mais palavra para os teus pastos.
A gaiola que prende a forma vulgar de não se ser ninguém mas querer ser tudo, é gradeada por esse irritante alarme, a negação é o mais puro fruto da aceitação, negamos o que somos na esperança que os outros aceitem o que não somos, mas se mentir-mos o suficiente a nós próprios tornamo-nos exactamente assim.
O jovem - Porque quereria eu a sua aceitação, "old man".
O velho - Chama-lhe dever antropológico ou mesmo social, quem sabe? Milhões de anos dizem-nos que nós "oldies" são quem se deve consultar para aquela decisão que nos tira o sono.
O jovem - Mas...
O velho - Não há mas, e acredita em mim, nem meio mas, deixa-me que te diga algo mais, lamentavelmente aquilo que sou ou que represento é altamente ultrapassado, mas não elimina estes anos todos de ouvidos bem abertos e olhos esbugalhados e observadores. Vocês jovens acabam por ser a minha televisão, rádio e revista, novelo enjeitado de novela, o meu passado e o nosso futuro, mudam os tempos mas não as vontades, essas são camaleões mascaram o nome mas são as mesmas ilusões.
O jovem - Eu não estou iludido, vou mesmo fazê-lo.
O velho - Faz, só tu podes ser o teu próprio dono não eu nem a tua mãe, tudo o que fiz foi pesar essa decisão, expandir a sua magnitude, pois conforme pender a tua decisão as réplicas serão imensas e devastadoras, e após esta conversa a mim só me irás desiludir se fores um cobarde e escolheres apenas por facilitismo sem nunca dormir e sonhar sobre o assunto.

O jovem assim o faz. E adulto se torna, o seu nariz tem novo dono, novo timoneiro, o mar é bravo mas de bravura se enche o peito, remédio escasso para as dores.

O adulto  - Sabes velhote não é com arrependimento que digo isto, mas tinhas razão, o peso é enorme, as milhares de possibilidades serpenteiam a minha mente como prostitutas as ruas, oferecem o mundo sem nunca mo garantirem, mas esta é a tua neta - e levanta o bebé na direcção dos céus - não a conheces-te mas ela vai-te conhecer a ti quando eu for velho, talvez sem o cachimbo que péssimo hábito, porque na terra também és vida, vida que faz crescer, esta semente é forte vem de raiz de embondeiro, esta semente é minha como eu fui tua primeiro.

O jovem agora adulto olha o céu e molha a terra, a lágrima é rio no rosto, a lágrima é dor no peito, olha para a filha olhos de vidro mas um sorriso por inteiro, com 6 meses apenas mas à 9 sem avô, a lage corta o chão como a ferida que nele não sarou, vida nova parece destino assim tinha que acontecer um sacrifício enorme para uma nova vida nascer. Na barriga de sua mãe o avô dedicou e lhe umas palavras, ” não fico cá mais tempo para me dares uma alegria, queria te ver nascer mas que não me vejas morrer, por isso é melhor assim, as palavras já me fogem, grãos de areia nos meus dedos, quero que saibas que sou velho e tolo, casmurro e irritante, serei o teu anjo da guarda e nunca estarei distante, e que a vida é, enfim, desconcertante, mesmo no fim o amor brota em mim, este sentimento abafa a dor e por isso morro feliz, amo-te."

E o velho que morre é vida, vida é brilhante. De bebé cresce o jovem, jovem a adulto transição para acabarmos à mesma sentados a conversar num cadeirão.

domingo, 9 de setembro de 2012

O dano está feito - My Friend Has A Moped


Partes com convicção
Desprovida de paixão e a Solidão

Leva o teu melhor 2x

Enquanto a colecção
de contos de ilusão

Cresce ao teu redor 2x

Mas nunca me perdi
Passo a passo espero esquecer-me de ti
E se meu coração está desfeito
O dano está feito
Não à volta a dar 2x

À noite a cabeça não pára
Nos meus sonhos também se depara
Com a forma dos lábios de quem provocou

Mas nunca me encontrou 2x

E quando a voz se vai
Rouca e cansado do que não sai
No silêncio és a faca que corta e que mata

O que quero dizer 2x

Mas nunca me perdi
Passo a passo espero esquecer-me de ti
E se meu coração está desfeito
O dano está feito
Não à volta a dar 2x

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Weird Feelings Part One

Well I usually try to avoid writting long texts in english because the flaws start to pop up now and then, but it is trully a great way to train and test my knowledge of the second language I know, I'll try to avoid the spelling checker so if anyone finds a loose end tell me so I can learn a little more, by the way and being completly honest with you, I kinda need to write this and don't want someone to read it, so that's the real reason for me to writte in english. Weak ass, I know. Here it goes.

Everyone that walks accross your path. Chances are they teach you something. In rare cases they leave a void or a huge mark in your soul like a super hot brand leaves a mark in a bulls skin, by mistake we let them do that to us, we start to break apart all those defenses and barriers in wich we hide ourselves the next thing are deepest secrets and feelings that are spilled out and before you know it you are like BP oil spill, all over the place and uncontrolable, then it comes the fucking branding iron that you kinda walk into and push against yourself, a deep recessed fetish we must have to let someone else burn us. Is there a way to avoid that? Not really. I answer. And then a choir of voices scream yes there is, hipocrits, are you telling me no one, absolutly no one did this to you?
Of course someone did, for better or worse now you walk around with a tear in the corner of your eye for the pain you felt when that happened and that hugely monumental weirdness when you see that person again, you tremble from the inside and you feel your guts being tossed around, thats the little angry kid inside you expressing is feelings he tosses around and breaks everything on is path, then it grows inside your stomach and starts to come up, oh you can try all you want to suppress it by swalling your own saliva by then it's gonna be fucking uselless the weird feeling as taken control, you kinda stuther can't think of anything usefull to say and you stay inside the box of small talk, until you pop that stupid question that is 99.9999999999% of the time "Yes, I am really happy", oh gosh you did it, you thrown yourself in front of the bus, that's an understatement let me try again, you thrown yourself in front of a bullet train next stop 900km from where you are and that little child just punched your heart like a rotating punching ball. Now you gonna be swalling on dry, and you realise holly shit you are most certainly a sucker.
Well I know I am one so doesn't really mather, in fact won't do a difference I will keep doing the same mistake, over and over, an endless cycle, should I be blamming the universe, my parents, myself? None of the above an Croatian singer/MC sometimes chants into my ears the words "I saw the world trough new eyes, reached out and found a friend, I touched a soul and gave my whole, I'll do it all again, the little things that fill my heart I'll bring it with me when we part" and in truth I do not regret it, in truth I do, the head spins around the idea if I did something different, well let's think about it if we where a completly different person do you think that could even started, or maybe we would pass it and did not even notice what could happen, then that same choir says we would be happier, hell no, you would be more miserable, because for a week, a month, an year, you were happy, free, not wearing the heavy burden of the armor around your heart, mind and soul, and why would you want to kill the "sadness on the verge of climbing trough, don't you try and fix it why would you do that, how beatifull when sadness turns to song", thanks David, and like this getting away with the spelling errors I made, I want the choir to say I'm right! No? Ok, the weird feeling is gone, the cure is doing something that makes regret only not ever getting a reason to face this feeling, and the brand heals into a permanent red mark under your skin, into a collection of memories that are good, bad and simply stupid, and about the bullet train just ride along smile back and think maybe someday will be your turn and others happiness is as important to the universe as your own.

Adeus.. Até à proxima... Ces't Fini

sábado, 17 de março de 2012

Cafés Feios: Labirinto

Olá. FODA-SE... Que foi desta vês? Que queres a este Gajo? Talvez um pouco do ópio que faz Dele um homem de alma cheia, mas a escolha de hoje está dentro do teu roteiro, não sei do que te queixas. Sim, fica, mas não estás aqui por que eu quero mas sim porque precisavas de algo Dele. Sim, tal como tu estás aqui porque precisas de algo.

Nisto aproxima-se uma rapariga "Brasileira" e ela pede um Porto antes que ele peça o simples café.


Humm qual é a tua ideia? Aturar-te, aturar as tuas idiossincrasias e os teus pseudônimos. Sou assim tão difícil de aturar? Não, mas... Mas? Mas o quê? Porque raio preciso eu de ti? Não sei, quem melhor que tu, para responder a isso?

Ele como de costume sereno, o mundo passa-lhe ao lado, ela stressada com o impetuoso rolar planetário, e o silêncio vigiado por uma Pessoa, perpetuasse entre os dois.

Então? Então o quê, não me piques o cérebro por favor hoje o dia foi horrível. Isso é uma falácia, o dia está bonito, radiante e quente. 

E a rapariga "Brasileira", serve os portos e espera de mão esticada pelo pagamento, nisto ela pega no copo e de rompante trata do liquido, o típico "pênalti".

Eu quero mais dois e traz também seja o que for que ele quer.

A rapariga com um olhar aterrorizado olha para ele à espera do pedido, ele tal e qual como chegou não afectado pelo espectáculo apenas sorri.

Então quero mais um porto, e se não se importar antes de ela agarrar os três copos passe primeiro por aqui com a bandeja que eu sirvo. Decidiste agora ser cavalheiro? Não, cavalheirismo, é uma jóia inútil, estou com medo é de passar a seco, e no meio de tantas interrupções o essencial ficou por responder, mas o quê? Sexo, pronto mais feliz? Morres sempre num assunto cuja discussão morre e se trata só e apenas com a acção, estou mais interessado na dúvida latente que te faz comportar como uma humana e não um robot executivo. Agora dominas-te a razão e decides me insultar, tu uma pobre desculpa de escritor desregrado e infame? Se discutimos infâmia sinto-me bem acompanhado por ele, eu sei que me consegues ver para além do que ganho, eu sei que lês com a visão irracional da alma, esses insultos não esquentam nem me arrefecem. Ora bolas.

Eis que se aproxima a "brasileira" com os três copos de Porto, aproximasse dele e estende a bandeja, ele tira um para si e serve os restantes a ela, que os emborcou no piscar de olhos e sai de rompante com todo o dramatismo que tais cenas merecem no cinema.

VAIS EMBORA? 

Ela simplesmente estende o braço ao ar como resposta, e afastasse rapidamente.

Olha pronto parece que esta pago eu, quanto é? Ora quatro portos, dez euros. Bolas, quanto é cada um? Dois e meio!

Ele tira da carteira, uma nota de dez solitária, estende-a com vagar e dá à "brasileira" com pesar que se afasta a passo largo. Ele virasse para a mesa ao lado.

Isto no teu tempo era mais barato não? Pois claro também eras um teso, bem mais vale apreciar a pinga já que vou a pé para casa.

E ele na mesa ao lado imóvel observa os turistas, os alienígenas e os alfacinhas calçada acima, escadas abaixo em direção ao metro.

"
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar, 
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
"
Fernando Pessoa

No ar um cheiro a mar. Ces't fini.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Criaturas

É tarde muito tarde, é evidente pela noite que me devora nas sombras aqui deitado, sinto as pálpebras com um peso enorme, uma névoa espessa ofusca-me os sentidos, o corpo pede pelo mundo dominado de sonhos naquelas portas que se abrem de mansinho quando os globos na sua órbita reviram e olham para o interior sombrio das nossas mentes, salvaguarda à navegação nesse espaço invocado pelo profundo descanso, nem tudo o que trás é bom, eu sei que por mais que tentes acreditar dúvidas da minhas palavras, eu sei que tu sabes, porque eu te disse, que dos sonhos, a maior parte não me lembro, mas que os que me lembro gravam-se sob a retina e são visíveis em pleno esforço laboral diurno, o velho no parque, a ponte sobre o rio, o fim que no fundo desejava para aquela noite, os sonhos e por fim os pesadelos são a nossa derradeira chance de enfrentar-mos outro mundo antes de voltar-mos a rotina que nos massacra na realidade, portanto lançamos-nos sobre eles cheios de fé, cheios de esperança que nos tragam prazeres mil o escape dos pobres de amor, dos que notam ausências dolorosas do outro lado da cabeceira e dos que nunca o experienciaram mas que activamente o desejam.

Os sonhos são sacanas, às vezes carregam-nos para outros lugares nojentos que nos lembram de todos os horríveis erros que comete-mos, o subconsciente é um filho da puta encapuçado que finge que na realidade está lá para nos ajudar mas espicaça-nos ao limite do desespero ao abismo complexo das nossas próprias capacidades cognitivas, somos escravos dele, dele do desejo , do prazer e das manipulações externas, contra esses elementos estamos completamente desprotegidos e arranja-mos mil e uma formas de racionalizar esses vícios que transporta-mos do berço à laje . Contudo e sem perder o fio à meada lá me deixo eu cair desamparado à mercê desse judas que vive dentro de mim em maquinações para se apropriar do meu corpo e consciência, aterro algures que por momentos até pensei ser o paraíso, o chão suave com erva fresca com água a correr, mas depois rapidamente veio à ideia que se aquilo era o paraíso esse deus perverso, sim escrevi deus sem capitular o d, processem-me, esse deus sádico não teve a puta da decência de me dar um par de óculos ou curar-me desta miopia irritante que me faz viver um mundo de disformidade s e cores esborratadas. Sádico do caralho, não tenho nada de bom para dizer sobre ti, foda-se, mas mesmo assim estando eu em algo que considero até agora a terra prometida, julgo eu que do sitio onde somos deixados até às portas onde se encontra o outro senhor, ainda temos uma caminhada para executar ao que dou os primeiros passos desconfiados e sigo o meu caminho, ao quinto ou sexto passo, cai, sim cai não me olhes dessa forma, cai dentro de um rio, esse teu deus palhaço, um rio gelado onde após o "splash" e o frio quase me chocar e quebrar a espinha começo a debater-me na procura insana de pé e um pulmão cheio de oxigénio, quando acho uma plataforma para que consiga ter parte do corpo fora de água e respirar, olho em frente e de repente vejo uma dessas formas que a minha doença ocular não me permite definir de todo, portanto esse algo sem linhas, ao que me parece ser na realidade uma criatura que chora e murmura, apercebo-me que de facto o riacho que quase me afogou é criado por ela, uma torrente de lágrimas jorra de algo pequeno azul, aquele azul gelo glaciar, por isso as temperaturas sub-zero naquela área, Porque choras tu? Inquiri eu. Porque sou o desgosto, choro porque sinto dor, choro porque apenas choro, em tempos soube a razão de tal mágoa, mas hoje desconheço a razão que me levou a chorar, choro porque sinto um frio enorme que gelou a minha alma. Então porque não paras? Não consigo, ainda doí tanto. Mas o que doí? TUDO. Tal e qual uma criança que petulantemente se dedica apenas a chorar por qualquer razão , esta criatura perdeu-se nisso mesmo no choro, algo um dia lhe gelou o e deixou uma cratera profunda no peito mas nem isso se recorda o choro tomou conta do desgosto, e transformou-se em gelo e rio, até estalactites de gelo apontam na direcção gravitacional. Mas ouve-me, Desgosto, tens que parar. NÃO CONSIGO, CALA-TE. E nisto um novo surto de choro desperta, e o rio aumenta abruptamente, perco o pé e desço com a corrente que se tornára mais forte. Rebolo no fundo desse riacho, até cair de novo, numa cascata, aterro na água, agora parada quase estagnada, chego à margem e subo as rochas vagarasamente, pesarosamente, sinto uma fonte de calor, da qual me aproximo desesperadamente, poderia secar-me e aquecer o corpo quase a entrar a em hipotermia, a cada passo, arrastado o antipático calor que sentia tornava-se cada vez mais ardente, mais pretensioso, ao que decido parar, estava quente o suficiente e a roupa começava lentamente a secar sobre a minha pele. Eu pensava que estavas com frio, no entanto páras e manténs a distância, aproxima-te eu não mordo, com muita força, ahahah. A fonte de calor é na realidade outra destas criaturas, vermelha, como se o sangue lhe corresse nas veias em ponto de ebolição, aproxima-se e eu como se fosse um termometro de mercurio sinto a diferença e dou um passo atrás. Afastas-te? Maricas. E nisto ergue-se e berra, altissimo, esta criatura emana um fogo de tamanha dimensão que o lago atrás de mim começa a evaporar-se rapidamente. E tu que berras quem és? Eu, ahahah, não sabes, cheiro o teu medo, mas sei que me conheces bem, e que a mim já cedes-te algumas vezes, sou o mais quente de todos os sentimentos, o mais poderoso, sou adrenalina, hormonal, SOU A RAIVA. Algo em mim tenta-me empurrar até ele, algo em mim que conhece esta Raiva, não a mesma parte que sentiu pena pelo Desgosto, não era certamente a mesma parte, o Desgoto ainda aparentava ser um humano, esta criatura protentuava-se como algo definitivamente diferente, uma espécie de dragão vermelho com pele feita de lava, fumegante, abrasivo, o espaço a sua volta tornare-se cinza, tudo o que fosse vegetação tinha ardido, a única coisa que impedia esse fogo de alastrar era o lago criádo pelo Desgoto. E porque sentes tu Raiva? Não se sente logo, ahaha, estás a mangar comigo, PAREÇO-TE TER CARA DE ALGUÉM QUE GOSTA DE BRINCAR? Eu penso para mim foda-se, estas criaturas e os seus dilemas e frases cheias de pequenos puzzles e enigmas endicifráveis. Deixa-me adivinhar também não sabes, desde que de certa forma entras-te em erupção? Eu sei, eu sei, mas aqui todos temos razões diferentes, e na realidade pensa bem onde estás, e se o seguimento de CRIATURAS, como nos chamas, não te parece familiar? E nisto a tatuagem que tenho no braço começa a queimar, incandescente, uma dor horrivel apropria-se do meu corpo. Estou a arder, é culpa tua? PENSA ESTUPIDO, QUEM SOU EU? A medo subo a manga da camisóla, e vejo o nome escrito a virar magma. Começa a fazer sentido ESTUPIDO? Meto o braço dentro do lago para que o fogo em mim acalme, para que eu em forma de vulcão não entre também em erupção. Sim faz sentido, eu estou na realidade dentro de mim, eu enfrento o desgosto indo buscar forças a alguém cheio de raiva dentro de mim. Exacto, devias o deixar sair, para brincar-mos, eheheh, ele é bem mais forte que tu, sua triste figura de humano, QUANTAS VEZES JÁ NÃO TE APODERAS-TE DE MIM COMO SE FOSSE TEU ESCRAVO EU NÃO SOU ESCRAVO DE NINGUÉM! Nisto a água sobre o meu braço começa a borbulhar de forma insana, a tatuagem começava a ferver a água tinha que me afastar, tinha que correr, mergulho nado até à outra margem e começo a correr. FOGE, ÉS SEMPRE O MESMO. O braço começava a sanar, mas o que ele disse faz sentido, na corrida a floresta intensifica-se, e sinto uma ao meu lado a correr à mesma velocidade que eu, como uma sombra que não era minha, paro, esta criatura continua a correr, mas volta a passar por mim, mais uma e outra vez, eu parado observava-a, corria em circulos quase me orbitava. Estás perdido? Pergunto eu. Não sei. Responde ofegante, esta criatura cinza, desculorida, parece procurar algum caminho definido mas nunca encontrar, volto a correr em frente, ela acompanha-me de novo, mas volto a parar e a olhar à minha volta, também eu parecia ter descrito um circulo à volta do vazio, penso para mim gritar um foda-se bem áudivel, mas aquela criatura antecipasse. FODA-SE. Eu ia dizer isso mesmo. Ias? Sim, porque andas às voltas tu? Estou perdido. E nisto esta criatura aproxima-se devagar, começo a distinguir-lhe os detalhes, é uma criatura bípede mas mesmo próxima continua com os tons de cinzento de uma sombra, a única cor que destoa em todo o seu corpo são os olhos, brancos, brilhantes, cegos, aproximo-me e passo-lhe a mão à frente dos olhos para perceber se consegue ver o movimento, e nem uma reacção. És cego. Bem... Ele sorriu e o que deu pare entender que no lugar da boca sustem apenas um vazio. Cego não sou, apenas não vejo, tu também de certa forma o és, aproximas-te para vislumbrar e definires-me, eu sinto o teu bafo quente a rondar-me como um beija flor sobrevoa a flor mais sumarenta. Ahah sim tenho miopia. Toma deram-me isto à muitas noites mas em nada me ajudam. E deu-me um par de óculos. AHHHHHHHH. Grito, seu deus filho da puta existem seres melhores que tu. Ele ri-se de novo. Que procuras tu? Aliás como te chamas tu? Eu não sei o que procuro à muitos amanheceres que acordo sabendo onde estou e perco-me ao anoitecer, quando a brisa se torna fria, não sei o que procuro, chamam-me por muitos nomes, Sombra, Caminhante, Sem Norte mas o meu nome é Frustração. Pois conheço-te bem demais. Bem à gentes aqui com destinos piores, apelidos piores e forças mais maléficas, tu, sinto que também tens um pouco de todos esses por quem passei, inclusive um pouco de mim, és humano. Sim. Muitos de vós passaram por aqui, alguns tranformam-se simplesmente em Desgosto por não encontrarem a saída e não voltarem para suas amadas, outros em Raiva por sentirem que a ilha é injusta, outros ainda correm dias e noites e morrem em sombras de Frustração. Tal como tu? Não sei, só me lembro deste galopante sentimento que se apoderou de mim, e assim fiquei solstícios sem fim. Sabes se à saída daqui? Certamente que há, os ventos não são daqui, tento segui-los, mas mudam, e outras criaturas tentam amansar a essa brisa. Hummm. Talvez deva ir então? Sim, eu também vou, naquela direcção o vento vem dali. E começa a correr até o perder na folhagem da floresta, sei bem este sentimento, tenho que me controlar para não ter mesmo fim que todos os membros anteriores da minha espécie que por aqui passaram, respiro fundo e a passo largo sigo através do ar fresco que me é soprado do interior do mato mais denso, agora consigo ver tudo o que me rodeia, pequenos trepadores que se elevam nas árvores, acelero um pouco o passo, quando de repente. Vê por onde andas. Desculpa não te vi por entre as folhas, quem és? Um corpo feminino, humana. O meu nome a ti não te importa, de qualquer maneira qual é o teu humano? Mesmo sem reciprocidade, voluntario-te o meu nome, Diogo, estás perdida também aqui? Não sejas idiota eu sou a rainha destas terras. Claro, retiro o que  disse portanto. Fazes bem. És humana? E nisto um desses trepadores que antes vira, sobe-lhe para o ombro e ali fica a observar-me. Boa pergunta, serei? Aparentas ser. A criatura no seu ombro grita, e mais como ela  rapidamente aparecem por entre as folhas das árvore, pequenas, acastanhadas de olhos brilhantes, emanam um brilho metálico que adorna tudo à sua volta, tipo cobre, os olhos do ser que sobre o seu ombro me observavam brilhavam mais que de todos os outros, tento me aproximar desse e um pequeno raio que mais parecia derivado de uma bobine de Tesla ataca-me nos óculos provocando uma pequena faisca, dou um passo desamparado atrás e afasto-me, ela ri-se. Não consegues lidar com um pouco de electricidade? O teu corpo certamente esconde a polaridade negativa que tens. Nisto começa a despir-se, e uma fenomenal mulher vislumbra perante mim, dou outro passo em frente e desta feita dois choques que não me provocam recuo, resisto à dor pensando que o beneficio de a possuir seria bem maior. Vem! Diz ela com voz doce, mais um passo e desta vez o choque foi muito maior bem no meio do peito, sinto o meu ritmo cardíaco acelerar demasiado rápido. Estás com medo, Diogo? Não mas diz-me o teu nome. Aproxima-te e digo-te ao ouvido. Respiro fundo e sinto um déja vu, o meu coração a mil à hora do choque e da excitação que neste momento inunda o meu sangue der hormonas, no entanto a torrente sanguinia transporta agora mais oxigénio ao meu cérebro, esse sentimento que reconheço, arde dentro de mim, mas o meu pénis troba dentro das minhas calças e propela-me a mais um passo, um enorme trovão atinge-me de novo no peito, arde, arde tanto, o meu corpo desfalece e caiu de costas no chão. Hihihih, Diogo, Diogo, Diogo. Ela ri-se em surdina e abana a cabeça devagar, levanto-me, sinto a electricidade navegar nos meus ossos completamente fragilizados, na minha cabeça vozes gritam o meu nome. EU SEI QUEM TU ÉS. Ai sim? Sim, sim, tu é as Lembrança, a Lembrança de Amor antigo, não dou mais um PAssoooo.... Um relâmpago vindo de todos os outros seres que se encontravam nas árvores cai sobre mim com uma força indomável.

Acordo uma luz ofusca-me os olhos, ouço muito ao longe o meu nome e um corpo cai sobre mim, o meu peito enche-se de ardor e grito, e tusso, e grito mais um pouco, o corpo rapidamente sai sobre mim ao ver a minha angustia e dor, um berro de outra sala vocifera que ainda estou em recuperação, olho à minha volta, não vejo aquela mulher, só humanos, acho eu, mais uma vez faltam-me os óculos, esse corpo, essa pessoa que caira sobre mim chora de felicidade e rapidamente aproxima um par de óculos ao alcance das minhas mãos, meto-os, e começo a reconhecer rostos familiares, sento-me devagar, a rapariga que antes me tinha provocado imensa dor agora aproxima-se devagar, abraça-me. Es...tás Bbbb...em? Por entre um gaguejar de soluços diz ela com voz preocupada. Tive o sonho mais estranho. Entra um médico que se ri ligeiramente. Não me digas que viste a luz? Não. Pois, estás cheio de sorte, quase morreste num acidente de mota na A2, tivemos que te trazer de volta, gastas-te bastante electricidade ao hospital, vai-te sair caro, portanto da próxima vez que andares atrás de memórias pensa bem antes de arrancares com uma mota, já agora é uma bela Ducati, digo antes era, e deixas a namorada aqui horas a fio feita carpideira no hospital a preocupar-se contigo, não entendo porque é que um jovem como tu renega tudo o que de bom tem para seguir sombras e fantasmas do passado. Exacto, às vezes deixamo-nos consumir e possuir por esses sentimentos sem olhar para o que de bom temos. Sim, bem de qualquer das maneiras pareces bem podes sair mais logo à tarde, já não nos devemos ver mais, mas daqui a um mês voltas para te tirarem o gesso, até uma próxima, bem vindo de volta, essa ilha que é a morte é difícil de escapar. Deito-me e por um momento descanso.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Cafés Feios: Esplanada



Olá. Olá. Portanto mais uma vez tu, sim tu, porque só tu me fazes sair da minha zona para andar 10km nas ruelas meio perdida e vir ter a uma esplanada no meio da rua, no meio da passadeira, numa esplanada ligada a uma tasca? Isso significa que sou importante. Julgas-te. Então explica-te, o que te fez fazer esses quilómetros. Há razões que a razão desconhece. Dirias que na realidade sou a tua unica ligação ao mundo a sério que no alto da tua torre de escritórios e nas pastelarias gourmet que frequentas com as tuas amigas, tanto ignoras? Não eu vivo no mundo a sério, ao contrário de ti que procuras nas páginas o mapa de coisas que a ninguém, de hoje, importa, e pensas que aqui no meio das gentes mais simples que vais encontrá-lo? Estas pessoas não se esqueceram dessas coisas.


E nisto disponho 1.20 euro, para pagar dois cafés.


Para além disso o café aqui é mais barato. E pior, mal tirado e basicamente uma das três coisas que aqui vendem, café, vinho e cerveja. Que mais precisas tu num café? Um cappucinno, um bolo, nem que seja um reles pastel de nata. Já viste a complexidade dessas coisas? Como assim o que tem de complexo um bolo e um cappucinno? Quando entro num sitio com essas coisas todas perco-me, como me perco na multidão dos centros comerciais. Sim eu sei por isso é que só sabes o caminho para duas ou três lojas de roupa e para as livrarias. Exacto, que mais de interesse pode albergar um centro comercial? Restaurantes, boas lojas de roupa, cinemas. Restaurantes também há aqui sem precisares de ir buscar as coisas num tabuleiro, nem esperar em filas, nem com todas as restrições ao meu tabaco, aqui sento-me, como, bebo, rio, falo e fumo o meu cigarro, para que servem então os restaurantes nos centros comerciais? Vai lá mais gente do que aqui. Claro as pessoas tal como tu esqueceram onde isto é! Porque isto é feio. De certa forma tens razão, de certa forma, mas a beleza está nos olhos de quem vê, e na realidade as pessoas deixaram de ver, deixaram de apreciar a simplicidade. Nos olhos do mundo isto é feio. Incomoda-te a simplicidade? Claro, o mundo só tem forma de avançar e não de regredir no tempo como tanto aprecias. O problema é que o sentido de simplicidade é mais complexo do que o princípio simples e robótico da modernidade, a alma é coisa sem vectores tangíveis. A alma, a paixão, isso é coisa dum mundo passado. Tens razão hoje em dia as pessoas procuram ser eficazes em tudo o que fazem e não ter paixão ou amor. Claro. É isso que procuras eficazmente em mim, sugar-me a paixão, a alma e o amor, coisas que sentes falta e não entendes bem porquê. Eu não procuro isso em ti, quanto muito o sexo, esta relação disfuncional, não emerge em pensamento de amor. Enganas-te eu não te amo, mas ao mesmo tempo, talvez o faça sem saber, tal como tu, quando antevês no espaços que deixo em aberto mais um beijo ou uma caricia. Esse vazio, é vazio da tua cama, da tua almofada, é sitio que não procuro mas que encontro, serás tu que és muito fácil em tal aglutinação. Não eu escrevo amando, amando profundamente as personagens que nem o seu nome sabem até eu lhe o atribuir. E tu sabes o teu nome? Não confundo o meu com o teu, e os deles, e os dos filhos que não temos porque deixas-te essa fome maternal enterrada nas areias movediças desse mundo que tanto idolatras. Eu tenho fome maternal, tu é que não és material paternal. Tens razão ensinaria o amor e a paixão, e todas essas coisas sem formulas matemáticas aos teus filhos, coisas que tu não queres que eles aprendam, para que depois não te arrastem para este mesmo sitio, ainda mais envelhecido mais feio. Exacto, quero que eles me arrastem para a broadway não pelas ruelas sinuosas desta capital de império de areia e pedra. A nossa capital, a cidade que nos viu nascer, e que por muito que te custe beijas com saudade no céu a cada viagem transatlântica para essa eléctrica Nova Iorque, e que abraças com vontade cada vez que olhas as praias da Costa da Caparica na aproximação à Portela. Que sabes tu disso, tu que nada sabes sobre mim e que apenas pensas que sabes. Leio-te nas buscas por estes cafés feios enquanto te espero, no desespero das tuas mensagens rápidas quando te deparas com a possibilidade de não achares a cadeira onde o sol te banha agora. Tu lês-me, ou pelo menos achas, porque o meu corpo para ti deve estar noutra língua, das poucas que não entendes. Não está o teu corpo simplesmente se enche de paixão e vibra sem padrão definido, o teu corpo deixa de ser teu e o meu deixa de ser meu, passa a ser nosso, e essa língua, só é decifrável aqui, nesta esplanada no brando calor que provém da chávena, em que tu dúvidas de cada palavra minha, e sem irrefutáveis argumentos me consegues explicar o que aqui fazes.


O olhar de quem nega aparentemente o que digo e o silêncio de quem nada tem mais para dizer.


Vamos embora? Deves precisar de boleia para casa tu, quando cresces e tiras a carta? Quando deixarem de haver cafés que desaprovas e achas feios.