quarta-feira, 20 de abril de 2011

Capt. 12





































Capt. 12



Sentado na falésia, João mira o sol desaparecer e apagar-se no oceano, sozinho sonha enquanto as suas mãos percorrem as teclas de um piano imaginário, num tributo ao pôr do sol, na sua imaginação correm ninfas, noites, vidas, já nada tem significado, a vida muito menos, apenas a música, esta fuga de nome "Ode ao pôr do sol", vem como uma epifania consensual, a harmonia é tudo o que importa, sentado na arriba, o som é belo e envolvente, a maresia cá fora, no seu interior a melodia que apenas ele ouve, não partilha, aliás perdeu o tacto e o faro das tecnologias desde o vinil.

De manhã escreveu na sua máquina de escrever, a carta, pela alvorada, muito cedo, velho, tão velho que já nem dorme, tão idoso que já nem descobre, isso da nova era da informação, portanto nesse inicio de dia, ouve a décima quarta sonata de piano de Beethoven, preenche-lhe a busca, a busca deste dia, num calendário que não estende para além de 1999, o mesmo que não vê um virar de página desde Julho de 1997, Julho, a ironia da data que lhe destruiu a vida, porque assim se chamava ela, a sua tágide, Júlia, musa e musico percorreram o mundo ao som das cordas do seu piano, aquele que agora é apenas imaginário nesse abismo em que descansa João.

Ele sente-se velho, viu o mundo dar tantas voltas, nestes anos todos, idoso, mas lembra-se das vezes em que chegava a casa esgotado, concertos, pessoas para conhecer, voltas ao mundo, etc., despe a sua gabardina pousa-a no sofá e dirige-se ao quarto, ao longe através da porta entreaberta já se ouve a musica francesa que ela adorava, Edith Piaf com o L'Hymme à l'amour, entrava no quarto, ela sentada à janela a ver a chuva miudinha bater na janela e escorrer de forma tão lenta, ele toca-lhe a face de forma tão carinhosa como tocava a mais bonita balada nas teclas de marfim, com a outra mão pousada sobre o seu ombro, toca as notas que a estéreo fonia debitava, e ela timidamente cantava, chega-se ao seu ouvido e diz o quanto adora a sua voz trépida, a edith ajuda-me, respondia ela, mas contigo aqui a canção toca-me, agarra-lhe a mão que pousava sobra a sua face e diz je t'aime, e ele afavelmente beija-a, logo a seguir, dirige-se aos discos e como se nem por acaso escolhe Louis Armstrong, e diz, preciso de me lembrar como é o mundo contigo, preciso mesmo, ela sorri, um dia pintas tu uma musica tão bela e positiva, e dedicas-me a mim Jô, responde ela, já te disse Ju a pintora aqui és tu, sobre a cama encontrava-se um quadro imenso do mais belo pôr-do-sol, sobre uma falésia o laranja e o azul do mar misturam-se perfeitamente, o mais belo quadro que ele alguma vez vislumbrara, o sorriso desaparece da sua face, não digas isso, pintora já não sou, agora correm lágrimas pela sua cara, tal e qual como na janela, levanta a mão e mostra-lhe como ela treme, ele vira a cara enquanto serve um whisky para si, dirige-se à sua mão estendida pega nela com intensidade, aproxima-se e beija os seu lábios húmidos de choro, tu cá dentro ainda és a pintora mais fantástica que alguma vez vi, enches de cor as minhas composições, ela abana a cabeça afirmativamente, ajuda-me a dormir, ele levanta-se retira-lhe o roube e auxilia o movimento até à cama, ela deita-se e ele ao som da estática do vinil, senta-se no cadeirão a apreciar o seu doze anos e a observá-la enquanto ela tenta adormecer, entretanto pergunta-lhe, juras-me que um dia compões uma melodia com todas as cores que esta alma de artista que dizes que tenho, ele sorri e responde, é o que faço todos os dias "musico-te".

Nunca lhe disse juro, prometo que o faço, no verão a seguir, disse-o, nem que fosse a ultima coisa que faça, sem filhos nem família o álcool acompanhou os seus dias desde então, os amigos foram desaparecendo à medida que a sua carreira musical ia desvanecendo no fundo da garrafa de vinho, nesta altura já não tinha capital para o seu adorado whisky, 14 anos à procura dessa pintura melódica que prometera pintar, nada lhe agradava, nenhuma era perfeita, a frustração tomou conta dele tal como tinto, era ai que a afogava, misturado com dor e lágrimas, na prateleira junto do já poeirento disco de Armstrong ainda se encontrava uma garrafa de Whisky a mesma dessa noite, era para beber quando conseguisse cumprir a sua promessa.

Hoje ao amanhecer escreveu uma carta, e encheu um copo desse fabuloso doze anos, bem agora tem vinte seis, depois de saborear, releu a carta e a pauta, e dirigiu-se para essa falésia.

Enquanto tocava a sua ode ao piano invisível, apenas via o ritmo e as cores misturarem-se sobre a imagem dela, sorria enquanto atingia o pináculo da balada no exacto momento do lusco fusco, e terminava da forma mais bela e suave, como todo o carinho com que tocava nela e fazia a musica tocar-lhe, que ela adorava, e com um sorriso parvo nos lábios tira as mão das teclas, respira fundo, abre os olhos e grita para o oceano, consegui, que ecoa nos confins do mesmo e volta até ele.

Com um esforço dorido e mudo, lança-se à espuma provocada pelo rebentamento nas rochas.







Na máquina de escrever a carta apenas dizia Obrigado, sobre a mesa a partitura para piano da "Ode ao Pôr-do-Sol" e a sua garrafa de Whisky por acabar.